• Início
  • Journal
  • Watts por quilo: quando uma métrica começa a valer mais que o atleta
  • Watts por quilo: quando uma métrica começa a valer mais que o atleta

    Watts por quilo: quando uma métrica começa a valer mais que o atleta

    Ao longo dos meus anos como nutricionista de vários ciclistas amadores à profissionais, lidei com o mesmo ponto: preciso emagrecer pelo watts/quilo.

    Ainda antes de se explorar este tema, já tratava desse assunto usando somatocarpas de biotipos e explora individualmente este tema. Ou seja, muitos desses ciclistas queriam um peso incompatível para a estrutura óssea. Ainda assim, alguns assumiam o risco de serem leves à custa de alterações significativas nos biomarcadores.


    E então, esta é uma conta que virou quase uma obsessão no ciclismo:

    watts por quilo.

    Quanto mais potência você produz e quanto menos você pesa, melhor.

    Faz sentido. Principalmente quando falamos de subir.

    Mas existe um problema quando uma métrica que deveria descrever a performance passa a determinar como o atleta deve ser.

    E o caso do ciclista do WorldTour Jonas Abrahamsen é um ótimo exemplo disso.

    No começo da carreira, ele chegou a pesar cerca de 60 kg.

    Era leve.
    Tinha o corpo que, no imaginário do ciclismo, parecia fazer sentido para subir.

    Mas ele não estava performando como poderia.

    Ao longo dos anos, Abrahamsen ganhou quase 20 kg.

    E aqui está a parte que me interessa:

    ele ficou mais pesado — e ficou mais potente.

    Sua potência máxima teria passado de aproximadamente 900 W para 1.500 W.

    Em 2024, ele chegou ao Tour de France muito diferente daquele ciclista leve do início da carreira. Disputou a camisa de montanha, vestiu a camisa verde e mostrou que aquele peso a mais não necessariamente estava “atrapalhando” sua performance.

    Talvez estivesse fazendo exatamente o contrário.

    E isso nos leva a uma discussão que vai muito além do ciclismo.

    O corpo não é uma equação.

    Quando olhamos apenas para W/kg, podemos concluir que:

    “Se eu perder 2 kg e mantiver minha potência, vou melhorar.”

    Mas e se, para perder esses 2 kg, você também perder massa muscular?

    E se cair sua força?

    E se sua potência diminuir?

    E se você começar a treinar pior?

    E se sua recuperação piorar?

    E se o corpo entrar em um estado de baixa disponibilidade energética?

    A conta matemática pode até ficar mais bonita.

    Mas o atleta pode ficar pior.

    Porque performance não acontece na calculadora.

    Acontece no corpo.

    E o corpo precisa fazer muito mais do que subir uma montanha.

    Precisa acelerar.

    Responder a ataques.

    Sustentar potência.

    Lidar com vento.

    Recuperar entre esforços.

    Treinar.

    Dormir.

    Se adaptar.

    E, principalmente, repetir tudo isso durante uma temporada inteira.

    Por isso, W/kg importa.

    Mas não conta a história inteira.

    A própria ciência do ciclismo já vem mostrando que potência absoluta e relativa podem ser complementares na avaliação de performance — e que olhar para apenas uma delas pode simplificar demais um atleta complexo.

    Talvez a pergunta não devesse ser:

    “Qual é o menor peso com que esse atleta consegue competir?”

    Mas:

    “Qual é o corpo que permite que esse atleta seja o melhor que ele pode ser?”

    São perguntas completamente diferentes.

    E talvez essa seja uma das maiores mudanças que precisamos fazer quando falamos de composição corporal no esporte:

    parar de tentar construir o corpo mais leve
    e começar a construir o corpo mais capaz.

     

    Compartilhe este post

    Deixe um comentário