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    Não me chame de guerreira

    Estava na semana do Ironman 70.3 no Rio e meu marido foi comigo para ser meu staff na prova. Como ele também é triatleta há muitos anos, a gente precisa revezar quem compete e quem dá suporte — até porque uma vez tivemos a audácia de fazer um ciclo de Ironman juntos e quase deu em divórcio (risos nervosos).

    Mas naquela semana ali, era a minha vez.

    Só que tinha uma cena que não parava de se repetir. Sempre que alguém se aproximava para conversar, fosse no saguão do hotel ou passeando pela Expo, a pergunta vinha no mais puro piloto automático, endereçada diretamente a ele: "E aí, tá pronto para a prova?"

    Eu nem esperava ele responder. Já mandava de primeira: "Não, quem vai fazer a prova sou eu!"

    A reação era imediata. Aquele breve susto, com um sorrisinho sem graça e um rearranjo de fisionomia para tentar adoçar essa “torta de climão”

    Para mim e para ele, como casal, essa dinâmica é super tranquila. Mas não dá para fingir que isso é só um mal-entendido inocente. É uma cena que se repete com muitas mulheres no esporte. Quando o casal está junto, o padrão da cultura é projetar o homem como o protagonista natural da performance e a mulher como mera acompanhante, nesse lugar do cuidado. E quando a ordem se inverte, parece que a cabeça das pessoas dá um nó.

    E esse nó fica ainda maior se o corpo dessa mulher não entrega aquela estética magra e triatlética que o mercado vendeu como o padrão ideal — se é que esse padrão deveria existir.

    Para tentar absorver esse desconforto e reorganizar a cena, as pessoas emendam logo com um: "Ah, então a braba é você, né?". Sinceramente, eu tenho ranço dessa frase. E tenho mais ranço ainda quando me dizem: "Força, guerreira!".

    Por favor, não me chame de guerreira, porque não estou indo para a guerra e não estou lutando pela sobrevivência. Eu estou indo fazer um triathlon por livre e espontânea vontade, para me divertir e encarar um desafio que eu escolhi. Tratar a mulher no esporte de alta performance como uma heroína trágica ou uma figura extraordinária parece um elogio, mas é uma armadilha deveras refinada. É uma forma velada de reafirmar a regra de que a força e a disciplina pertencem ao mundo masculino, restando a nós o papel de exceção à regra.

    Por que as mulheres ainda representam menos de 20% do start list nas grandes provas de longa distância pelo mundo?

    A resposta rápida costuma culpar a biologia ou uma suposta falta de interesse. Mas a conta é bem mais complexa e envolve também o uso do nosso próprio tempo. O tempo do homem é historicamente tratado como um tempo livre para conquistar o mundo — seja na carreira ou dedicando 15 horas semanais a rotinas de treino vistas com foco, mérito e disciplina de protagonista. Já a mulher ainda carrega uma expectativa silenciosa de disponibilidade constante para o outro, de cuidar da gestão da vida afetiva e do entorno. É como se a mulher já fosse acostumada a viver sobrecarregada por excelência.

    Mesmo quando não se tem filhos, a cobrança não é igual. Dedicar horas do fim de semana para treinos longos é, para a mulher, um movimento psíquico muito mais custoso. Exige bancar o próprio desejo sem pedir licença e sem carregar aquela culpa invisível por estar "sendo egoísta".

    Na psicanálise, Lacan trouxe uma provocação famosa ao dizer que "A mulher não existe". Ele não estava negando a nossa existência real, mas dizendo que não existe uma essência universal, uma caixa fechada ou uma definição única e padronizada do que é "ser mulher".

    O mercado do esporte, no entanto, tenta nos enfiar dentro de uma caixa. Vende uma imagem universalista de atleta sob a lógica masculina: um sujeito focado, obsessivo, dominador do corpo e perfeitamente ajustado a uma estética de rendimento.

    E quando a mulher vai para a rua performar sem vestir a fantasia exigida pelo mercado, sem tentar se encaixar nesse molde pré-fabricado, ela causa um ruído na cultura. A surpresa das pessoas diante de um corpo fora do padrão na linha de largada revela a dificuldade do mundo em aceitar que o direito de exercer a própria força não tem um formato único.

    Estar na linha de largada de um 70.3 ou de uma maratona não é apenas cumprir métricas de paces e watts. Para a mulher, estar ali é um ato contínuo de reapropriação da própria imagem, do próprio tempo e da própria vida.

    Por que a nossa decisão de priorizar a nós mesmas e encarar o esporte ainda precisa, de algum modo, passar pela validação ou pela autorização do olhar do outro? Por que o esforço do homem é lido como mérito, enquanto o tempo da mulher ainda precisa ser negociado contra a sobrecarga e a expectativa do cuidado?

    Toda vez que uma de nós responde que "quem vai fazer a prova sou eu", a gente não está só corrigindo um interlocutor distraído. A gente está convocando o mundo a reordenar as próprias expectativas sobre quem tem o direito de assumir o papel principal.

     

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