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    A estigma das ultra-distâncias: elas nunca vão tão longe

    Estranho né. Mas é verdade – aquelas competições de ciclismo muito longas, assim como as ultra-maratonas a pé ou longas travessias de natação – não costumam ter a visibilidade que mereciam.

     

    Pra explicar esse fenômeno precisamos abandonar aquelas falas clichês como “aqui no Brasil ninguém valoriza o atleta de verdade” e virar a chave para encarar um fantasma global das ultra-distâncias: essa modalidade é tão inacessível que chega a ser sofrida até para os espectadores, patrocinadores, organizadores de evento e equipes de transmissão.

    É possível que alguns discordem do que eu estou falando. Vamos então enumerar alguns pontos que talvez passem minha fala à limpo.

    A Race Across America, competição de ciclismo que cruza os 5 mil quilômetros dos EUA de oeste à leste em apenas 12 dias é muito mais intensa do que o Tour de France que tem “apenas” 3,3 mil kms em um tempo de 23 dias (sim, pra conta ser justa você precisa inserir os dias de descanso do Tour).

    O Tour tem uma média de 140 km por dia, a RAAM passa dos 400 km.

    “Ah mas a Race Across America não tem a mesma visibilidade porque a organização é ruim”

    Discordo. Acho que eles não conseguiram ter uma organização de tanta excelência igual o Tour, assim como uma transmissão ao vivo, por que eles se mantiveram firmes no propósito de não mudar a sua essência: longa distância, nunca reduzir as quilometragens.

    Sabe quem já mudou essa essência? O próprio Tour de France. Sim, antigamente ele era uma competição bem mais longa.

    Para 2026 a organização divulgou um percurso de 3.333 kms, mas há exatos 100 anos atrás, em 1926, o Tour de France registrou a sua edição mais longa, com 5.745 kms. E o mais curioso, não foram 21 ou 23 etapas, foram “apenas” 17 dias de disputa, o que nos leva à um calculo simples de que as distâncias diárias foram bem maiores do que atualmente.

    Não precisamos ir muito longe. Se puxarmos os registros de 10 ou 15 anos atrás, veremos que os organizadores ainda tinham a mania de inserir algumas etapas muito longas, de aproximadamente 300 quilômetros. Aos poucos, acabaram com isso. Para esse ano a etapa mais longa vai ser de 205 km.

    Por quê? Difícil transmitir, pouca gente assiste tantas horas de corrida, difícil fechar as rodovias, cria-se um gap enorme entre o primeiro e o último colocado, e por último mas não menos importante: distâncias assim tão longas costumam eliminar o espetáculo de um grande ataque ou de um sprint nervosão. Chega todo mundo morto e desidratado, lutando pela vida. Ganha quem vai mais lento, fazendo menos paradas e que não acaba no hospital.

    Quer outros exemplos? O XC (Cross Country) tinha 3 horas de duração. Foram abaixando até chegar nos 50 minutos e viram que se diminuísse mais do que isso virava bagunça. O que aconteceu? Criaram uma nova modalidade, o XCC (Short Track).

    Sucesso absoluto. Fácil de transmitir, pancadaria pura, público presente em todo o percurso, assim como as logomarcas de patrocinadores. Masculino e feminino disputam no mesmo dia, os times nem movem seus apetrechos da zona de apoio. Pancadaria o tempo todo, atletas disputam cada centímetro, não levam nem um gel no bolso. Tombos aos montes, cada segundo importa. Espetáculo altamente condensado e compactado.

    Depois que o XCC deu certo ainda criaram o XCE, que é mais curto. É tipo aqueles vídeos de instagram com edições que cada take tem 0,01 segundo, sabe? Deu certo também.

    Até o Inca Divide, uma das competições de ultra mais reconhecidas mundialmente, teve sua primeira edição com aproximadamente 4 mil quilômetros, e depois abaixou para 1.800 km.

    Por outro lado, vale a pena repassar como as disputas de ultra-distância se alimentam de recordes e inimizade com a palavra ‘limite’. Um louco pedalou 700 km ao longo de 24 horas no velódromo. Logo depois veio outro e bateu a marca e assim fomos chegando até os atuais 941 km de Christoph Strasser.

    Eu mesmo não sabia e precisei pesquisar. É claro que nem a mãe dele deve ter assistido o evento.

    As vezes me pergunto se é saudável essa mania que nós da ultra distância criamos de sempre aumentar um pouco, sem nunca colocar um teto. Sim, nós. Eu fiz isso por muito tempo e defendo a ultra distância até o fim.

    Mas gostar não quer dizer apostar. Você pode gostar de uma empresa que está prestes a falir, mas comprar ações dessa empresa chega a ser um pouco ousado. Você pode ser fã do candidato que tem apenas 1% nas pesquisas, mas acreditar que ele vai ganhar mostra que você não está avaliando os números e a realidade. Meu ponto é não confundir torcida com resultado final.

    Me lembro agora de um outro tópico bem divertido sobre esse assunto: o campeonato mundial de gravel que já nasceu igualzinho ao campeonato mundial de road. Copiaram a distância, altimetria, tempo de prova e para deixar mais fácil de transmitir, fizeram ele em um circuito de várias voltas. De gravel, na minha opinião, só sobrou o nome. Até mesmo o campeão não estava usando uma gravel.

    Fato é: as longas (ultra) distâncias tão presentes no gravel foram assassinadas logo na primeira edição de sua disputa mundial da UCI. Não estou dizendo que ‘ficou fácil’ nem estou tirando o mérito do Van der Poel pela vitória. Pelo contrário, uma corrida com esses moldes de prova de estrada é, na minha opinião, mais difícil do que uma prova de gravel em ultra-distância. Pelo menos eu teria mais dificuldade.

    Tá bem, chega de exemplos. Sendo verdade ou mentira as suposições que fiz aqui, o que tudo isso quer dizer? O que tudo isso nos diz sobre as Ultras? São ruins?

    Não, meu amigo. O fato de poucas pessoas conseguirem praticar, assistir e organizar é justamente o que cria a exclusividade dessa modalidade. É isso que cria um aspecto altamente único e peculiar, tanto que grandes camisas listradas raramente se aventuram por ali.

    Fica claro que UCI e COI não fazem ideia de como deve ser o protocolo para mandar seus fiscais cobrir um evento que demande virar a noite em cima de uma bicicleta.

    A exclusividade da ultra já corta na raiz quem não dá conta do recado. Ultra distância é para poucos, e isso vale não só para os atletas que treinam e competem, vale também para os fãs que acompanham, para as marcas que se aventuram em lançar os produtos específicos para isso e principalmente aos organizadores de evento que lidam com uma complexidade tão grande em meio à ausência de patrocinadores para algo, novamente, tão específico e nichado.

    Deixo aqui os meus parabéns a alguns deles: BikingMan, Caminhos de Rosa e o Reality Biker, que aconteceu no final de semana passado e me inspirou a escrever este texto.

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