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    O ciclista e o garçom

    Um homem sentado em uma mesa. Aquelas de alumínio, que parecem pesadas, mas na verdade são bem leves. A cadeira fazia parte do conjunto. Estava em um café na rua, um dia horrível e ameaçando chover.

    Só tinha aquela mesa e uma única cadeira na calçada, apesar de haver espaço para mais três cadeiras naquela mesa, e espaço para mais uns 6 conjuntos de mesas e cadeiras. Também pudera, a cafeteria ainda nem abriu direito. O garçom colocou só aquele conjunto por que viu que o potencial cliente já estava ali na porta, esperando o estabelecimento abrir logo.

    Não é qualquer um que já está na rua as 5:99 da manhã, principalmente com roupas esportivas e uma bicicleta ao seu lado.

    A bicicleta parecia mais pesada que a mesa. Provavelmente, de alumínio também. Ela se apoiava na mesa e vice-versa, atrapalhando um pouco a passagem do único pedestre, o funcionário da cafeteria, que se apressava para ligar as luzes e máquinas e conseguir atender o cliente que já estava ali desde cedo.

                  - Me dá só um tempinho que já venho te atender, tudo bem?

    A preocupação era real. Atleta costuma ser pontual e tem hora pra sair. Se demorar pra atender, ele vai embora.

                  - Tudo bem, não se preocupe – respondeu o ciclista

    Piorou. Gente educada merece ainda mais atenção. O funcionário ligou o computador, colocou água na cafeteira e voltou pra deixar um cardápio. Se ele pedisse um pão de queijo ia levar uns 30 minutos e essa era a maior preocupação do garçom. O ciclista permanecia tranquilo, sem esboçar nem um décimo da pressa do atendente.

    O funcionário voltou lá dentro e olhou pelas câmeras a mesma cena que via pessoalmente. O homem permanecia inérte, ao lado de sua bicicleta, sem nenhuma atividade aparente.

    Será que já fez o seu treino ou ainda vai fazer? Pode estar esperando um amigo?

                  - Já escolheu o seu pedido?

    Um pequeno silêncio constrangedor. Este é tipicamente o momento em que qualquer dono de bar ou restaurante consegue diferenciar um bom cliente dos problemáticos. Não que eu tenha conhecimento do mercado de restaurante, mas porque já fiz parte dos clientes que puxam o ticket médio de um restaurante pra baixo.

                  - Então – pausa duvidosa – você tem Gatorade?

    Tá na cara que ele não precisa de um Gatorade. Ele nem olhava pro cardápio por que nada ali lhe interessava. Quase que improvisou a pergunta enquanto puxava o ar, foi como se a tivesse criado na esperança de escutar um ‘não’. Ainda não sabemos o porquê, mas o atendente reconhece este diagnóstico imediatamente.

    O garçom considerou perder a venda do repositor eletrolítico para acabar logo com aquilo e voltar a abrir a cafeteria com a calma de seu ritual diário, mas ele possuía profissionalismo suficiente para seguir com aquele cliente que mal queria estar ali.

                  - Tenho só de tangerina – mentiu o garçom. No estoque tinham quase todos os sabores, o de tangerina era o único gelado. A mentira não foi para atrapalhar, apenas para dar uma chance ao ciclista de dizer que não gosta do sabor da tangerina e que iria embora.

                  - Pode trazer um por favor!

    O garçom viu que não seria tão fácil desvendar o que estava acontecendo ali. Antes que desse partida para buscar o Gatorade de tangerina, surge mais um pedido:

                  - Você tem wifi aqui?

    Neste momento entramos em uma fase mais madura daquela transação comercial. Garçom percebia que não era um cliente problemático ou de ticket médio baixo, era apenas uma pessoa com um problema pessoal desconhecido, que não estava ali para comprar café da manhã ou Gatorade, apenas alguns quilobytes de rede móvel.

    “Não precisava comprar o Gatorade, era só pedir a senha que eu te dava”

    Isso o garçom não falou, apenas pensou em silêncio. Ele jamais recusaria a senha para quem pedisse, mas agora precisaria fingir costume e permanecer com a venda daquele produto que quase ninguém pede.

    Deu a senha, trouxe o Gatorade, se disponibilizou para anotar qualquer outro pedido, que obviamente não haveria.

    Voltou para dentro e começou a aquecer o forno do pão de queijo, tarefa que havia reservado para este momento em que o ciclista estranho não iria mais precisar de sua ajuda. Mas escuta imediatamente:

                  - Cobra aqui por favor?

    A bicicleta ficou sozinha la fora, enquanto o ciclista surgiu no lado dentro da cafeteria, olhando para trás a cada 1,5 segundos para conferir se o veículo de propulsão humana ainda estava lá.

                  - Mas já? – disse o garçom, não como quem esperava mais pedidos, mas como quem se rebelava pela primeira vez com o cliente e os seus mistérios, agora munido de uma pressa repentina.

                  - Meu uber chegou! – respondeu o protótipo de atleta.

    Pagou, agradeceu e saiu correndo todo troncho fazendo um barulho metálico ao pisar no chão de porcelanato. Uma mão segurava o celular, a outra segurava um óculos e capacete. De algum jeito as duas agarraram a bicicleta que já tombava no chão de tanto arrastar a mesa peso pena.

    Na rua, os quinze segundos de conversa com o motorista de uber eram uma negociação para permitir a viagem com a bike no porta malas. O passageiro iria no banco da frente.

    Por sorte, o terceiro personagem da história era tão simpático quanto os outros dois. Além do que, ele era mais um que não queria recusar trabalho as 6:08 da manhã.

    Enquanto eles abaixavam os bancos de trás do carro e abriam o porta malas, a cafeteria foi quem ficou sozinha e o garçom caminhou até a rua, bem perto do motorista e o ciclista.

    O ciclista entendeu tudo: “Esse garçom não deve ter entendido nada do que aconteceu por aqui, é hora de explicar pra ele que eu só precisava de wifi para chamar o uber, que chegou mais rápido do que eu esperava, por isso precisei pagar com pressa e meio sem educação, vou pedir desculpas. Por outro lado, vou explicar que comprei o Gatorade só para usar o wifi mesmo, como forma de agradecimento. Mas certamente esse garçom só veio aqui porque está curioso para saber como vamos fazer para colocar essa bicicleta dentro de um Onix prata. Ele não sabe que qualquer bicicleta cabe dentro de qualquer carro, é só questão de abaixar os bancos e tirar uma das rodas – a da frente é a mais fácil, além de que evita deixar o câmbio e a corrente soltas, com maior chance de sujar o carro ou deus me livre, empenar o câmbio. Ele também não sabe que essas rodas podem ser removidas sem precisar de nenhuma ferramenta. O que não quer dizer que eu não tenha ferramentas, elas estão aqui no meu bolso. Eu só esqueci de carregar a minha bomba de ar elétrica, foi por isso que eu não consegui consertar esse pneu furado de hoje e estou precisando voltar de uber. Sim, a bomba de ar que a gente usa é elétrica, coisa de alta tecnologia, só dei bobeira com a carga mesmo. E o pneu só furou por que peguei um prego grande, aqui dentro não tem câmara de ar, é um liquido que veda tudo. Não tudo, um prego desse tamanho igual ao de hoje não costuma vedar mesmo, tem um limite sabe. Bom, se eu tivesse macarrão vedaria, mas eu lavei minha roupa com eles no bolso e eles estragaram, preciso comprar outro. Não, não é esse macarrão aí não, macarrão é um negocinho de borracha assim, serve pra consertar furo de pneu. Lá vou eu explicar para o garçom curioso que saiu la de dentro da cafeteria como é que tudo funciona, mas pelo visto ele gosta de bicicleta ou deve ter algum amigo que é ciclista e vai me perguntar se eu conheço esse amigo, e quando isso acontece eu geralmente conheço os ciclistas da região. Ou vai pedir dicas de como comprar uma bike para começar. Vamos lá.”

                  - Fala meu nobre! – o ciclista cessou seus quilômetros de pensamentos e verbalizou as boas-vindas ao garçom, naquela segunda circunstância em que se encontravam, aguardando por qual seria a primeira pergunta que ele faria sobre ciclismo.

                  - Você esqueceu seu Gatorade – entregou a garrafa e voltou para dentro da cafeteria para terminar de assar o pão de queijo, sem saber de nada da vida do ciclista.

    Os três seguiram a sua terça-feira normalmente.

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