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    Bicicleta, cinema, vinho e stones – não precisa ficar repetindo

    Eu tinha menos de um ano de pedal quando treinava por uma trilha muito técnica e escutei um veterano dizer: “Essa aqui é uma trilha que todo dia estará diferente do anterior. Você nunca faz o mesmo pedal”

    Aquilo ficou na minha cabeça. Na verdade, está até hoje.

    Por quê parecia ser somente sobre as alterações naturais e geográficas que podem existir em um caminho que é feito de terra, areia, pedra e vegetação, mas na verdade descobri que existe algo maior nessa frase.

    Até mesmo uma rodovia (monótona e repetitiva) também vai sempre te oferecer variações a cada dia. Mas depende de nós, atletas/amadores.

    Sabia que os grandes enólogos (aqueles caras inteligentes e bem vestidos que estudam tudo sobre vinhos) costumam te recomendar que você não repita nunca um mesmo vinho?

    É por que existe vinho demais por aí, mesmo que você tomasse 3 garrafas por dia, levaria uns 100 anos pra provar todos eles. E ninguém vive tudo isso, principalmente bebendo tanto assim.

    Dá um aperto no coração pensar que vamos ter que fazer uma certa força para nunca mais sentir o sabor daquele vinho que você tanto gostou né? A palavra ‘nunca’ é muito forte. Você pode repetir, claro, mas está perdendo a oportunidade de conhecer outro.

    Se a gente não fizer o exercício de partir pro próximo, corremos o risco de cair na mesmice, ou no mínimo, de não conhecer o novo.

    Já reparou que as crianças sempre pedem pelo mesmo filme todas as vezes que entram nas locadoras (me refiro à década de 90, claro)? Também sempre pedem pelo mesmo sabor de pizza.

    A repetição é confortável, monótona, segura e um pouco infantil. Em outras palavras, a forma de amadurecer o seu repertório é criar variação.

    Claro que existem exceções. Quentin Tarantino disse que foi ao cinema mais de 15 vezes assistir ao seu próprio filme Jackie Brown. Certamente ele se baseia na repetição para alcançar a maturidade de seu repertório.

    Mas quando o Jorge, advogado, paga 3 plataformas de streaming e só assiste 4 filmes por mês (um ele dormiu na metade), vem me falar que vai assistir pela 15ª vez Jackie Brown, aí eu começo achar que tem hiperfoco misturado com algum transtorno.

    Meu ponto aqui, nesse blog de ciclismo, é abrir uma avaliação sobre a possibilidade de a nossa rotina na bicicleta estar em um patamar de variação, repertório e conhecimento vasto – ou de estar presa à segurança, mesmice e ‘paladar infantil’ de sempre.

    Refleti nisso tudo quando escrevi um artigo sobre a importância de a gente variar os pneus que usamos. Pneu é provavelmente o assunto mais vasto da humanidade.

    Assim como um vinho tem diferentes uvas, safras, clima, terreno, blend, temperatura, envelhecimento – um pneu tem diferentes tipos de borracha, largura, mais redondo, mais quadrado, quantidade de cravos, altura, espaçamento, TPI, kevlar/arame, proteção...

    Não acaba nunca. E ainda assim, tem gente que acha importante comprar o mesmo pneu que veio na sua bicicleta, para manter sempre a originalidade. Ou usar aquele favorito de sempre.

    Aí eu volto naquela fala do veterano dizendo que aquela trilha técnica que nós estávamos nunca seria uma trilha repetitiva. Ele falava mais por ele do que pela trilha em si. Observar as possibilidades, linhas, frear um pouco antes, um pouco depois, jogar o peso mais pra frente, ousar mais em cada um dos obstáculos – ou simplesmente ousar menos para experimentar os resultados de uma velocidade mais baixa.

    Usar um equipamento diferente, suplemento, roupa? Claro que isso conta. Igualzinho às variações do vinho e dos pneus.

    E enquanto busco uma conclusão para esse texto, me recordo de outra frase que custei muito tempo a digerir. Um dos músicos do Rolling Stones, não me recordo qual, respondeu à clássica pergunta de um jornalista: “Vocês não se cansam de tocar as mesmas músicas por mais de 50 anos?”

    Ele respondeu que todas as vezes que sobem no palco, fazem de tudo para tocar a música de um jeito diferente – mirando no melhor.

    Acho que nem sempre eles acertam no melhor, pois o mesmo vale para as nossas escolhas de vinho, pneus e decisões de pilotagem quando estamos em uma trilha casca grossa.

    A gente treina todo dia, parece que sempre fazendo tudo igual: vai na oficina, compra um pneu, volta pra casa, prepara a bicicleta, prepara o kit pro dia seguinte, acorda cedão, faz o seu treino favorito e volta pra casa – quem sabe a noite tem um vinho, um filme ou Stones das antigas.

    É a mesma coisa todo dia – só que todo dia a gente faz diferente.

    É verdade. Uma trilha nunca vai ser igual a outra.

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