• Início
  • Journal
  • A insaciável busca pelo upgrade perfeito.
  • A insaciável busca pelo upgrade perfeito.

    A insaciável busca pelo upgrade perfeito.

    Nos últimos dias me peguei cogitando um upgrade na minha bike. Quem me conhece sabe que eu tenho um baita apego emocional a ela: uma Specialized Shiv tão linda que chega a mudar de cor conforme a luz. Para mim, a Shiv é o Corolla das bikes. Já está velha de ano, sequer tem freio a disco e câmbio eletrônico, ainda assim é uma baita bike de respeito e eu sou completamente apaixonada por ela. Sempre fui dessas que não vê a menor necessidade de uma atleta tão amadora como eu investir o preço de um carro popular em uma bicicleta. Mas, nesses dias, caí na tentação de planejar uns upgrades no meu Corolla de duas rodas.

    Certa vez me disseram que o melhor upgrade na bike para quem é peba que nem eu é qualquer coisa que a faça girar melhor. O conselho faz sentido. Então pensei: por que não um rolamento de cerâmica no movimento central e um novo par de rodas de carbono? Mas a sovina que habita em mim sequer cogitou a hipótese de investir em um CeramicSpeed. O resultado? Sigo há algumas semanas na dúvida obsessiva de qual rolamento comprar, revirando sites, comparando preços e fritando os miolos.

    Essa nossa relação com o equipamento é curiosa. O mercado do ciclismo é uma máquina genial de criar necessidades que a gente não tinha até cinco minutos atrás. É o novo grupo eletrônico, o guidão integrado que esconde os cabos, a promessa de economizar quatro watts de potência no vento contra. De repente, o esporte que nasceu como sinônimo de liberdade e simplicidade passa a ser mediado por infinitas parcelas no cartão de crédito e uma insatisfação crônica. O ciclista entra em um ciclo onde a bicicleta nunca está boa o suficiente porque sempre falta um detalhe, alimentando a insaciável busca pelo upgrade perfeito.

    A psicanálise explica muito bem por que a gente funciona desse jeito. Sigmund Freud foi quem primeiro nos mostrou que o desejo humano nasce de uma falta irremovível. Para ele, nós passamos a vida tentando reencontrar aquela sensação de satisfação total que experimentamos um dia, mas que se perdeu para sempre. A gente tenta tapar esse buraco de qualquer jeito, mas nenhuma experiência e nenhum objeto é capaz de preencher essa falta perfeitamente.

    O nosso desejo funciona justamente por esse deslize constante. Nós nunca desejamos a roda de carbono ou o rolamento de cerâmica pelo que eles são de verdade, mas sim pela promessa de que eles vão, finalmente, nos satisfazer e nos trazer uma sensação de completude. O problema é que, no segundo seguinte em que você passa o cartão e instala a bendita peça na bike, o desejo se esvazia. Aquela satisfação incrível dura duas ou três pedaladas. Logo em seguida, a gente escorrega para o lado e se fixa no próximo upgrade da lista. A indústria do esporte se alimenta justamente dessa engrenagem humana, dessa falta que nunca se preenche.

    Aliviar duzentos gramas trocando um componente ou gastando uma nota para o pedal girar mais redondo é infinitamente mais fácil do que encarar a balança e perder os quilos excedentes no nosso próprio corpo. É muito mais simples passar o cartão do que sustentar o desconforto real de um treino de tiro no plano ou de uma subida longa sob o sol nas montanhas. Muitas vezes, a gente projeta na máquina a nossa frustração de sermos humanos, pesados, cansáveis e limitados. É a fantasia inconsciente de que o dinheiro pode comprar o rendimento ou a facilidade que o nosso corpo insiste em não entregar — seja porque faltou consistência na planilha, ou porque, simplesmente, aquele é o nosso limite naquele dia.

    Não há nada de errado em buscar o upgrade perfeito. O perigo está em achar que a resposta para o nosso rendimento ou para a nossa felicidade está carimbada em uma nota fiscal. No fundo, o vento bate com a mesma força na cara de quem pedala uma supermáquina mais cara que um carro popular ou de quem vai com um "Corolla de duas rodas".

    Na próxima vez que você se pegar há semanas em uma dúvida obsessiva por um upgrade de milhares de reais para deixar a bicicleta mais leve, se pergunte: o que você está tentando fazer girar melhor e deixar mais leve de verdade: a engrenagem da bike ou o peso da sua própria cobrança?

     

    Compartilhe este post

    2 comentários

    Fantástica reflexão!

    Diogo

    Essa insatisfação tem nome que a sociedade atual não reconhece. O que ela no brilhante e maravilhoso texto, atribui a Freud na verdade não é. O vazio nosso só vai ser preenchido por Cristo.

    JANDER BAIRRAL VASCONCELOS

    Deixe um comentário