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    Relatos históricos de um relacionamento conturbado: a bicicleta e a musculação

    Certamente você já entendeu que a musculação é importante pro ciclista e pra qualquer pessoa comum, atleta ou não, mas existe um contexto de vai e vem dessa opinião que vale a pena a gente recordar. 

    Ver essas duas atividades juntas é como ver um casal comemorando bodas de ouro e contar das vezes que eles já brigaram, foram para a terapia e voltaram mais fortes do que nunca.

    Me recordo que quando comecei a treinar e competir na bike (meados de 2005), existia uma atividade que começava a viralizar entre os jovens comuns não atletas: a musculação. Ela ganhou força nos anos 90, não por questão de saúde, mas por pura estética.

    Acreditem ou não, as academias ficavam lotadas às vésperas das micaretas – não é uma piada, é pura verdade. Era o ‘projeto verão’ daqueles tempos. A molecada de 15 a 20 anos de idade começava a se importar com manter um shape bom, digo, bonito. Isso foi um pontapé para que no futuro esses jovens fizessem alguma relação entre beleza e saúde, algo que começou primeiro no Rio de Janeiro e depois foi pro resto do Brasil.

    Quando essa galera da ‘academia pra ficar bonito na praia ou na micareta’ chegou ao mundo dos esportes, é óbvio que aconteceu um choque de conflitos com quem já estava lá.

    Eu estava nesse bolo quando comecei a pedalar e ouvi diversos atletas me dizerem que era pra eu parar de fazer academia, por que ela estava atrapalhando a minha performance na bike.

    É como se a academia pertencesse ao grupo dos micareteiros, não dos atletas.

    Não era mentira nem verdade. Não tem nenhum campeão do Tour e nem mesmo do Cerro Abajo que tenha 40 centímetros de braço. Mas, foi-se o tempo em que um atleta sem nenhuma relação com academia tenha vencido o Tour. No DH é capaz que isso nunca tenha acontecido (fonte: minha cabeça).

    Pouco depois que escutei algumas pessoas me dizerem que perder peso e musculatura me fariam andar melhor na bike, tive a oportunidade de presenciar uma conversa revolucionária em um dos grandes centros do MTB brasileiro.

    Eu entrei no escritório da OCE em 2009 e encontrei uma conversa de gigantes. O Felipe Miranda, atual treinador da Velo Time, mostrava para o Henrique Furtado (atual manager da Specialized) e o pro Hugo (atual treinador da OCE e campeão mundial) um vídeo do Lance Armstrong fazendo academia. Eu cheguei ali por acaso em um momento de descontração deles.

    Me lembro da fala do Felipe:

    - O Lance ganha tipo 10 quilos de puro músculo durante a pré-temporada dele, ele fica igual fisiculturista!

    E ali aqueles três começaram uma discussão sobre a importância da musculação muito forte para ciclistas.

    Talvez você tenha a sensação de que eles estavam atrasados naquela conversa, mas não. Na verdade, anos depois, durante as vitórias do Froome, voltamos a condenar a musculação excessiva, por que um cara com shape de bicho pau dominou por 5 anos.

    Reza a lenda, e quem me contou essa foi o Henrique Bravo, de que o Froome não carregava sacolas no supermercado para não ganhar nenhum tipo de musculatura superior.

    Hoje na geração Pogi a gente vê ele ativando a musculatura antes da prova com exercícios similares ao pilates e yoga. Foi mais uma notícia chocante de exercícios fora da bike que aconteceu em pleno 2024.

    Aí preciso contar de uma das grandes terapias de casal que a bike e a musculação fizeram. Aquela vez que a Scott publicou um vídeo do Nino e seu preparador físico treinando em uma academia que não tinha nenhum aparelho convencional. Quem não conhece, pesquise aí por “Nino Schurter – Caminho para a gloria capitulo 9”.

    Aquilo aconteceu em 2015 e mudou totalmente a forma como ciclistas e treinadores passaram a se relacionar com a academia. Marcas de equipamentos esportivos passaram a fabricar as gambiarras que apareciam no vídeo e eles são encontrados até hoje nos melhores centros de treinamento para ciclistas.

    Ali a gente entendeu direitinho como os exercícios se aplicavam dentro da pista e o tanto que fazia total sentido cada um deles. Ali a gente entendeu que a musculação tradicional é uma coisa, treino de força para ciclistas é outra. Não vou dizer ‘totalmente diferente’, mas apenas ‘outra coisa’.

    É como se a tradicional musculação, que antes namorava o micareteiro, agora cortou o cabelo, colocou uma roupa nova e decidiu casar com o ciclista. Trocou seu sobrenome para Treino de Força.

    Hoje, nos cálculos de peso/potência a gente entende que o peso das musculaturas não é algo ruim e vez ou outra nos surpreende com um custo X benefício melhor do que imaginávamos.

    Até pra tomar um tombo, o cara precisa estar forte. Nenhum fisiculturista ganhou uma prova de bike, mas o conhecimento de treinos específicos de força começou a engatinhar apenas com o intuito de vencer provas, mas apareceu com um segundo propósito: saúde.

    Não muito diferente da molecada que fazia academia pra ficar bonito na micareta e anos depois viram que aquilo fazia bem, até trocaram as noitadas pela vida de esportes, os ciclistas também perceberam que os treinos de força não servem só para bike. É para postura, mobilidade, longevidade, prevenção de acidentes nos treinos e na vida cotidiana.

    Que bonito é ver essa dupla se entendendo bem e criando bons frutos.  

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