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  • Existia mais liberdade na era pré Strava e computadores de bordo?

    Existia mais liberdade na era pré Strava e computadores de bordo?

    Recentemente li uns textos absurdamente fantásticos da psicóloga esportiva Paula Figueira, discutindo onde é que o nosso esporte deixa de ser prazeroso por ficarmos muito neuróticos e bitolados com performance e treinos (em um resumo muito porco da minha parte).

    O tema me fez lembrar de uma discussão antiga, de quando o Strava era uma novidade e todos os dias a gente chegava em casa com 5 ou 10 KOMs novos, afinal, os segmentos ainda estavam no início de seu desbravamento. Era tipo comprar terreno em 1910, custava mais barato.

    Naquela época levantamos a discussão (que veio a morrer alguns anos depois) sobre como a disputa por segmentos virtuais nos levaria ao declínio das disputas reais. As competições físicas que aconteciam aos domingos passariam a não ser mais as únicas competições da galera.

    Por uns meses as trilhas viraram uma loucura. Em cada treino comum de quarta-feira, tinha um louco passando por aquele trecho de empurra bike como se estivesse em uma corrida de cyclocross, alucinado para economizar cada segundo. É por que ali tinha um KOM, com chances reais de ser batido.

    Todo dia, todo mundo estava tentando pegar um KOM.

    Era comum ver alguns posts do instagram (que também engatinhava à época) algumas fotos de placas em trilhas dizendo “Proibido Strava” ou “Fuck your KOM”

    Acontece que essa discussão já era batida desde antes do Strava. Quando popularizaram os Garmins com GPS e medidores de potência, uma galera criou um adesivo, no mesmo formato e cor do Garmin, pregado na mesa da bike, escrito apenas “No Garmin, no rules” (Sem garmin, sem regras).

    Era o grito dos “ciclistas raíz” contra os “nutela” (esses termos existem até hoje, estou certo?)

    Em um mesmo período de 2 ou 3 anos tivemos a ascensão do Instagram, Strava e rinhas de pokémon em praça pública.

    Quer algo mais aprisionador do que o instagram? E aquelas crianças (e adultos) que saíram para caçar Pokemon e causaram a maior perturbação de ordem pelas ruas do país? E os ciclistas se matando em um treino comum que nem tinha uma premiação real?

    Mais uma vez a gente leva um aprendizado do esporte para o resto da vida. Mais uma vez assistimos os aprendizados da vida chegarem primeiro no esporte.

    Antes de dizer que é ruim a disputa desenfreada por um KOM em uma quarta feira as 5:50 da manhã, que tal se lembrar daquela ostentação por uma vida linda e perfeita que existe somente nos posts das redes sociais?

    É óbvio que meu ponto não é pra deletar o instagram, strava ou jogar fora o seu computador de bordo. Nem mesmo parar de caçar pokémon, caso essa seja a sua atividade favorita.

    O ser humano sempre teve a reação imediata de condenar o que é novo, principalmente se ele sai da vida real e entra no campo virtual das telas. O problema nunca esteve no Kom, no stories ou nas batalhas pokémon, mas sempre em quem usa. E sim, é facinho usar errado.

    Tá cheio de blogueiro legal produzindo coisa massa no instagram, inclusive alguns até fazem conteúdos sobre como não deixar as redes sociais virarem um vício ou algoritmo doentio.

    Recentemente saiu um boato de que quando os caçadores de pokémon capturavam um bichinho eles tinham que fotografar o local da captura. Aquela foto era usada para base de dados como do google maps, então, apesar de terem criado certo tumulto nas ruas, eles contribuíram em muita coisa para quem usou um app de navegação – google maps, waze, talvez até o Strava.

    Você consegue ser um caçador de KOM sem deixar o treino da semana desagradável e anti-social. Você consegue lembrar de aproveitar a vista das montanhas (e até tirar uma foto) mais do que fritar na normalized power que tá aparecendo nas métricas do computador de bordo. Você vai lembrar de olhar mais pra frente do que pra baixo. É isso que eu espero de você, apesar de algumas pessoas terem falhado.

    Você consegue entender que o seu pedal pode estar nas redes sociais e nas disputas virtuais, desde que o principal ainda esteja ali: o seu pedal.

    Partiu inscrever para alguma corrida legal esse ano?


    Breno Bizinoto foi ciclista ultra-distância, cicloviajante e hoje se distrai escrevendo e gravando uns vídeos sobre esse mundo de duas rodas

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