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    O que você está deixando de viver hoje?

    Tem uma conta que eu não fiz durante muito tempo, e só fui fazer mesmo depois de mais de 12 anos de triatlo — tempo suficiente para viver, dentro do esporte, quase uma segunda adolescência, só que em plena perimenopausa.

    É a conta de quantas vezes eu deixei de estar com as pessoas que amo por causa de um treino de bike às cinco da manhã no dia seguinte. De quantos cafés numa manhã de sábado com as minhas amigas eu deixei passar porque meu treino terminava quase na hora do almoço. E tem uma conta mais complicada ainda: quanto tempo com os meus pais eu fui empurrando para depois, achando que sempre ia sobrar tempo mais para frente. Só que o "depois" a gente sabe que nunca é garantido.

    Dia desses vi um vídeo de uma influenciadora de corrida no Instagram que pareceu feito sob medida para mim. O vídeo falava sobre como a gente, sendo atleta amador, vive se cobrando uma disciplina de profissional, treinando como se fosse para as Olimpíadas enquanto adia o exame de rotina, o curso da carreira e o tempo com quem ama.

    E teve um significante que apareceu no vídeo que me marcou muito: gentileza. Fazer o que a gente ama, evoluindo nisso, mas com gentileza e honestidade com a própria vida e com os outros ao nosso redor.

    Gentileza, aqui, não tem nada a ver com preguiça, descaso ou "passar a mão na própria cabeça". Não significa treinar sem vontade ou desistir diante da primeira dificuldade. Gentileza é a capacidade de olhar para a própria rotina sem crueldade. É entender que o nosso corpo não é uma máquina extrativista de alta performance e que a nossa vida não se resume a uma planilha. Gentileza é o oposto dessa lógica do "tá pago" que domina as redes sociais — aquele post que mostra resultado como quem presta contas a um cobrador para quitar uma dívida invisível.

    A gente costuma chamar esse exagero de disciplina, foco ou comprometimento. Mas eu prefiro chamar pelo nome que Freud deu: supereu. Aquela instância psíquica que não pede, exige; e que nunca se satisfaz porque a lógica dela não é a do prazer, é a do gozo. Esse excesso que a gente persegue mesmo quando machuca, mesmo quando nos afasta justamente do que amamos.

    O senso comum do esporte vende a ideia de que sofrer é prova de maturidade e que abrir mão de tudo é sinal de foco admirável. Só que isso confunde duas coisas bem diferentes: buscar prazer e superação em uma prática, e estar capturado por uma cobrança sem fim. Viramos nossos próprios carrascos, e por isso fica tão difícil bater o ponto e ir para casa.

    É esse paradoxo que eu observo direto na clínica atendendo atletas profissionais e amadores. Os profissionais vivem esperando o período de transição no fim da temporada. Eles têm uma data clara onde o descanso é previsto e autorizado. Para o profissional, o descanso e a recuperação são partes integrantes do trabalho. Já o amador tenta socar uma planilha pesada dentro de uma rotina real que já envolve trabalho, família e boletos. Ele quer acordar às quatro da manhã, engolir o café, treinar por quase duas horas, trabalhar o dia todo exausto e ainda treinar mais uma horinha à noite. E o pior: o amador não tem um calendário oficial para autorizar a pausa. Ele só tem a si mesmo como juiz — e esse juiz interno, o supereu, raramente aceita recurso.

    Eu mesma brinco que, num ciclo de Ironman, a gente fica meio burro, porque não sobra energia mental para pensar em mais nada. Vira e mexe me peguei adiando projetos e encontros porque estava sem bateria social e "tinha que treinar". Meu marido, que tem muito mais tempo de triatlo do que eu, me questionava quando me via nesse movimento: "Você não tem que nada". A gente não fica imune só porque entende a teoria. Às vezes, entender a teoria só glamouriza a forma como a gente se cobra. Como diz o ditado, santo de casa não faz milagre.

    Não acho que o problema seja se dedicar, se esforçar, buscar o nosso 1% a cada dia ou querer resultados extraordinários . Buscar evoluir pode sim ser muito bom. O problema é esquecer que o nosso "melhor" não é o mesmo todos os dias. Às vezes, o nosso melhor do dia é o máximo do nosso mínimo, é fazer o que deu para fazer mesmo podendo pouco. O erro é transformar o esporte em um tribunal constante e usar a rotina do atleta de elite como régua para a vida inteira, sem perceber que nem o profissional vive daquele jeito o tempo todo.

    Talvez valesse a pena resgatar o sentido original da palavra amador: aquele que faz por amor. E o amor precisa de gentileza. Não combina com dívida, autoflagelação e ausência de pausa.

    Fica a pergunta que eu não paro de me fazer: o que você está deixando de viver hoje, em nome  de uma planilha que não deveria ser a prioridade da sua vida?

     

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    1 comentário

    O treino para si mesmo é o melhor treino . Uma planilha como base está super ok . O “tá pago” não é inteligente . O “Garmin parou” é prestar contas a quem não se interessa por você .
    Parabéns pelo texto !

    André •

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