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  • Pedalar é terapêutico, mas não é terapia: O que o ciclismo (não) faz pela sua saúde mental

    Pedalar é terapêutico, mas não é terapia: O que o ciclismo (não) faz pela sua saúde mental

    Se eu passo três dias sem treinar, eu me transformo em uma pessoa insuportável. Fico de mau humor, perco a paciência com facilidade e, às vezes, tenho a sensação de que há uma rádio sintonizada no volume máximo dentro da minha cabeça. Alguns dirão que é vício ou dependência, mas quem vive o asfalto sabe: o esporte é, na verdade, um potente regulador da nossa sanidade. Mens sana in corpore sano, mas, na prática, as coisas são bem mais complexas do que no ditado latino.


    Viver em sociedade nos exige uma dose extra de resistência, especialmente no Brasil. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), somos o país mais ansioso do mundo, com quase 10% da população convivendo com transtornos de ansiedade. Estamos o tempo todo conectadas a tecnologias que prometem facilitar a vida, mas que, na prática, só aceleram as cobranças. É a culpa de sair para o treino longo no sábado sabendo que o sono acumulado da semana está cobrando o preço, ou o olho no Garmin cronometrando o intervalo do tiro enquanto a cabeça já está na primeira reunião do dia. É o malabarismo invisível de quem tenta ser "atleta" na planilha e "alta performance" no CPF, carregando o cansaço físico para o escritório e a pressão das metas para os nossos hobbies. A tecnologia acaba nos deixando em dívida constante: com o trabalho, com a família e, principalmente, com o descanso que a gente nunca se permite ter.


    Sigmund Freud já avisava em “O Mal-Estar na Cultura” (1930) que o sofrimento é um subproduto inevitável da civilização. Ele nasce da finitude do nosso corpo, das exigências do mundo externo e da complexidade das relações humanas — que, para Freud, é a nossa principal fonte de sofrimento. Para aplacar essa angústia existencial e sobreviver em sociedade, temos algumas saídas: alguns se isolam, outros buscam substâncias que amorteçam as preocupações. Mas, como não dá para ser um eremita na montanha — e como as fugas químicas cobram um preço alto e perigoso demais —, buscamos nos esportes de endurance uma forma de fazer alguma coisa com esse mal-estar.

    O risco é que, se perdermos a mão, o esporte deixa de ser remédio e passa a ser veneno. É aqui que entra o conceito de Pharmakon: a substância que, dependendo da dose, cura ou mata. 


    Existe uma linha sutil onde a busca por desempenho a qualquer custo sequestra o nosso hobby. De repente, a planilha de treinos vira uma extensão da planilha de metas do trabalho. Quando o esporte deixa de ser o espaço onde você se encontra para ser o lugar onde você se esgota apenas para "provar algo" ao GPS, a saúde mental fica a muitos quilômetros de distância.


    Essa duplicidade me faz pensar no que realmente significa "bem-estar". Vivemos uma obsessão pelo wellness, uma promessa de prateleira que vende a saúde num pote cheio de gominhas doces e coloridas, como se a vida fosse um estado de plenitude constante. Autores clássicos da psicologia do esporte, como Weinberg e Gould, definem o bem-estar por pilares como autoaceitação e domínio ambiental — quase como se a saúde fosse o funcionamento perfeito de uma máquina. Eu discordo dessa teoria. A vida não é plena, nem plana. Ela é um rolling hills: cheia de altos e baixos, sobe e desce, pneus furados, vento contra e muitas imprevisibilidades.


    Gosto muito da visão do filósofo francês Georges Canguilhem para definir o que é o bem-estar. Para ele, saúde não é o equilíbrio total, mas o "luxo biológico" de poder cair doente e se recuperar. Saúde é ter margem de manobra. No endurance, vivemos esse luxo a cada quilômetro. Literalmente corremos o risco de levar um tombo, com a possibilidade real de levantar. Estar bem não é pedalar sem crise; é ter a resiliência de lidar com o pneu furado no meio do nada, com a perna que não responde bem no dia do rachão do pelotão ou com aquela manhã em que a cabeça acorda pesada, como se estivéssemos com um capacete de ferro.


    Quando fazemos um bom uso do esporte, ele organiza a vida justamente por nos devolver essa margem. Lembro-me de uma paciente que chegou ao consultório falando do livro “Você aguenta ser feliz?”, do psiquiatra Arthur Guerra e do publicitário Nizan Guanaes. Ela buscava uma psicanalista que entendesse que, para ela, o movimento era o que permitia ordenar o caos do dia a dia. O livro conta como Arthur Guerra ajudou Nizan a trocar hábitos nocivos pela disciplina do esporte quando ele estava à beira do colapso. O exercício entrou ali como o suporte necessário para que a mente criativa pudesse operar sem se autodestruir. É a ética da dosagem do Pharmakon em sua melhor forma.


    Considero que os esportes de endurance são uma experiência bruta de autoconhecimento porque nos forçam a encarar a nossa autonomia quando o cansaço bate. A autoeficácia não nasce da facilidade; nasce da capacidade de sustentar o desconforto e de se reinventar quando o corpo ou a mente pedem arrego. É um crescimento pessoal que transborda para a vida, mas apenas se o pedal for um lugar de descoberta, e não uma cobrança por uma performance impecável.


    O exercício é terapêutico? Absolutamente. No meu caso, foi o que me permitiu lidar com a ansiedade e abrir mão de ansiolíticos, aliando o suor a anos de divã. Mas sejamos honestos: treino não é terapia. Essa diferença fica clara quando olhamos para o que é o "corpo" em cada uma dessas situações.


    Para o esporte, o corpo do atleta é uma máquina de performance: organizado pela repetição, pela técnica e pela busca de domínio. É um corpo que se mede, se aperfeiçoa e se orienta pela eficácia de cada gesto. Já a Psicanálise nos convida a olhar para o corpo de outra forma. Para além dos músculos e do rendimento, ela enxerga um corpo que é atravessado pela nossa história, marcado pelos nossos desejos e habitado por pontos que insistem em escapar ao nosso controle.


    É por isso que o treino — que tantas vezes nos traz um alívio imediato — não deve ser confundido com uma sessão de análise. Enquanto no esporte somos treinados para repetir e não falhar, na análise o que nos interessa é justamente a falha. É o tropeço, o ato falho, aquele obstáculo interno que nos para e que só nos permite avançar quando paramos de lutar contra ele e o assumimos como sendo nosso.


    No fundo, o que buscamos no endurance é uma tentativa de "bordar" o inesperado. Existe um conceito que usamos na clínica chamado Tuché (ou Tiquê), que define justamente o encontro com o Real — aquilo que fura a nossa rotina, escapa ao planejamento e nos confronta com o imprevisto. Ironicamente (ou não), essa é a essência do que vivemos na estrada: o pneu que fura, a chuva que desaba ou a perna que trava sem aviso. O verdadeiro bem-estar não vem de evitar esse encontro com o inesperado, mas de saber o que fazer com ele quando ele bate à nossa porta.


    O pedal pode até oferecer um alívio imediato e dar uma "limpa" no humor, mas ele não mexe no que está causando a bagunça. Entender por que a gente repete os mesmos erros ou por que certas angústias insistem em voltar é um trabalho de bastidor, que exige pausa, escuta e a coragem de dar nome ao que sentimos em uma sessão de análise. Sem esse espaço, o esporte corre o risco de ser apenas uma distração para não encararmos o que realmente nos faz sofrer. E se você sofre mais por ter perdido um treino do que aproveita quando está em cima da bike, o veneno começou a circular.


    O questionamento que Arthur Guerra faz no título do livro é o que eu deixo para você: “Você aguenta ser feliz?” Aguentar a felicidade exige a ética de saber quando acelerar e quando frear. Exige o luxo de, às vezes, não ser produtivo e performático para conseguir continuar sendo saudável. No próximo treino, observe: você está correndo para algum lugar ou está apenas tentando fugir de si mesmo?



    Paula Figueira é Psicóloga Esportiva, Psicanalista e Triatleta Amadora. No Instagram @paulafigueirapsi compartilha reflexões sobre o "avesso da performance" e como o esporte pode ser um caminho de liberdade, desde que saibamos dosar o remédio.

     

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    2 comentários

    Cara Paula, tocaste em uns pontos muito bons, atividade pode até ser terapeutica, mas não é de forma alguma terapia, outro ponto que adorei do seu texto é a forma que descreve o corpo do atleta e sua repetição em busca da perfeição (se é que isso pode existir), e como a repetição no ato analítico vai justamente ao contrário, procurando a falha. Adorei seu texto, estou a espera de outros.
    Abraço Fraterno
    Felipe

    Felipe Rocha

    Maravilhoso teu artigo. Parabéns e obrigada pelo compartilhar

    Jussara RamosZanetti

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