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  • Somos feitos de carne, mas vivemos como se fôssemos de ferro

    Somos feitos de carne, mas vivemos como se fôssemos de ferro

    Recebi a notícia numa manhã de domingo off de treino por uma mensagem de WhatsApp do meu pai. Aos 40 e poucos anos, receber mensagem de pai e mãe logo cedo já é motivo de preocupação automática. Mas o alerta era mais dele do que meu: Mara Flávia, uma triatleta experiente, havia falecido na etapa da natação do Ironman Texas. Comentei com meu marido enquanto o café passava. Ele, triatleta desde que se entende por gente e que já perdeu amigos próximos no esporte, apenas balançou a cabeça em um silêncio pesado.

    Dali para as mensagens nos grupos de treino foi um pulo. Não tem jeito: essas fatalidades viram o único assunto da semana na nossa bolha. E quem de nós nunca teve uma paranoia de ter um “piripaque” na natação? Quem nunca sentiu aquele broncoespasmo logo após a largada e achou que o coração ia sair pela boca, ou pior, que ia “ir de arrasta” ali mesmo, antes de chegar na primeira boia?

    A angústia não é apenas pela perda de uma colega de esporte; é uma angústia existencial.

    “Somos feitos de carne, mas temos que viver como se fôssemos de ferro”. A internet adora atribuir essa frase a Freud, mas na verdade ela vem do livro Quando Nietzsche Chorou, do Irvin Yalom. No livro, o autor coloca essa fala na boca de um Freud ficcional, mas a frase se tornou tão potente que colou na imagem do pai da psicanálise. E não é que faz todo sentido? No endurance, a gente corre o risco de olhar para a planilha como se fosse esse contrato de imortalidade assinado em cartório: se eu bati o ritmo e ingeri os gramas de carbo por hora, estou blindada pelo "ferro". 

    Freud dizia (aí sim, o real, em O Mal-Estar na Cultura) que o sofrimento é um combo inevitável de estar vivo, e uma das fontes é justamente a finitude do corpo. Não esqueço da primeira vez que ouvi uma analista dizer, logo no início da minha formação na Escola Lacaniana de Psicanálise de Vitória: “O que é o nosso corpo senão um cadáver que carregamos?”. É mórbido, assustador, mas é a verdade nua e crua. Nos esportes de endurance, a gente tenta desviar desse destino. Cada treino longo é uma tentativa de dizer para a morte: "hoje não, hoje eu sou mais rápida que você". Mas o choque de realidade de notícias como essa é que a morte não lê planilha. Ela não quer saber se o seu FTP é alto ou se a sua bicicleta custou mais caro que um carro popular. O esporte vira uma saída para aplacar a ansiedade, mas também nos coloca de cara com o fato de que o nosso “corpo-máquina” tem prazo de validade desconhecido.

    Buscamos nesse significante “Ironman” uma fantasia de antifragilidade, e a própria marca nos vende esse fetiche. Parece uma tentativa heroica de negar a finitude através da repetição exaustiva, quase como se o suor pudesse lubrificar as engrenagens e impedir o desgaste do tempo. Mas a verdade é que, já na natação, o mar nos esfrega na cara que não somos tão de ferro assim. A gente se sente pequena, vulnerável e engolida por algo muito maior. Somos frágeis, e o endurance é a experiência bruta de nos levar até essa borda.

    O caso da Mara gera uma onda de comentários de “especialistas de sofá”. É uma tentativa tosca de racionalizar o inexplicável: “será que os exames estavam em dia?”, “será que ela estava doente?”. Esse excesso de “serás” e julgamentos é apenas uma defesa. As pessoas buscam desesperadamente um erro no outro para se convencerem de que estão seguras. É a dificuldade em aceitar que, às vezes, o corpo simplesmente falha, e ponto.

    O luto que nasce dessas histórias não deveria servir como um medo paralisante, muito menos como um convite para interpretações selvagens sobre o que aconteceu ali, algo que está fora do nosso alcance. O ponto é que pensar na finitude do outro nos obriga, inevitavelmente, a pensar sobre a nossa própria finitude. A reflexão que fica o que esse impacto provoca aqui dentro: será que estamos ouvindo os sinais de alerta ou apenas tentando ignorar a própria fragilidade? Gastamos tanto tempo tentando ser inabaláveis que esquecemos de aprender a ser abaláveis com dignidade. 

    No fundo, o que buscamos no endurance é uma tentativa de "bordar" o inesperado. Mas precisamos aguentar a felicidade de saber que somos humanos, falíveis e finitos. Respeitar o ritmo, fazer os exames e, principalmente, saber a hora de desistir, é o que nos mantém vivos para a próxima largada. No fim das contas, a gente nada, pedala e corre para se sentir vivos, e não para fingir que nunca vai morrer.

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