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    A nova Era de ouro dos prodígios do ciclismo

    substantivo

    1. pessoa que apresenta alguma habilidade ou talento fora do comum; portanto

    "ele é um prodígio para matemática"

    "Paganini foi considerado um prodígio do violino"

    1. acontecimento que é ou parece estar em contradição com as leis da natureza

    2. coisa ou fato extraordinário; maravilha, milagre

    3. que ou o que possui excepcional inteligência ou talento para sua idade (diz-se de criança)

    "criança prodígio"

    "Mozart foi um prodígio"


    Quando comecei a acompanhar com paixão e entusiasmo o ciclismo, Miguel Indurain finalizava sua incrível sequência de 5 Tour de France consecutivos, algo absolutamente incrível para época. Desde aquela época sempre ouvia que o ápice de um ciclista de grandes voltas era no momento de vida em que a vitalidade e a experiência se encontravam, próximo aos 28 anos. Essa foi a média de idade dos vencedores do Tour desde o surgimento da era de prodígios atuais, iniciada por Egan Bernal, o jovem colombiano em 2019 de 22 anos. De lá pra cá, Tadej Pogacar (21,22,25 e 26 anos) e Jonas Vingegaard (25 e 26 anos), contribuíram para essa revolução na faixa etária dos corredores vitoriosos de grandes voltas.

    É verdade que o ciclismo sempre produziu talentos precoces, mas nunca na frequência e na dimensão que vemos atualmente. Durante boa parte do século XX, vencer uma Grande Volta era considerado o prêmio reservado aos atletas mais experientes, forjados por anos de aprendizado, derrotas e amadurecimento físico. A lógica parecia simples: primeiro aprendia-se a correr; depois, aprendia-se a vencer.

    Tivemos algumas exceções como Bernard Hinault (23), Jan Ullrich (23), Alberto Contador (24), Eddy Merckx (24) e tantos outros que chegaram cedo ao topo. Mas eram justamente isso: exceções. Cada geração parecia produzir um único prodígio capaz de desafiar as convenções. Se pegarmos os mais jovens vencedores da história do Tour, 3 são da era do ciclismo antigo e 2 estão em atividade:

    1

     CORNET Henri

    19a + 354d

    1904

    2

     POGAČAR Tadej

    21a + 365d

    2020

    3

     FABER François

    22a + 187d

    1909

    4

     BERNAL Egan

    22a + 196d

    2019

    5

     LAPIZE Octave

    22a + 280d

    1910



    Hoje, a exceção virou regra. A geração liderada por Egan Bernal, Tadej Pogačar, Remco Evenepoel, Juan Ayuso, Isaac del Toro, Paul Seixas transformou completamente nossa percepção sobre o que significa ser jovem no ciclismo.  Não estamos falando apenas de atletas que vencem cedo. Estamos falando de ciclistas capazes de dominar diferentes terrenos, reinventar estratégias e impor um ritmo que obriga adversários mais experientes a mudar sua forma de competir. É tentador atribuir esse fenômeno apenas à evolução da ciência esportiva. E, sem dúvida, ela teve papel decisivo. A preparação física tornou-se quase uma engenharia de precisão. Nutrição, fisiologia, aerodinâmica, análise de potência, inteligência artificial e monitoramento em tempo real reduziram drasticamente o tempo necessário para transformar um talento bruto em um campeão.
    Mas essa explicação, embora correta, é insuficiente. 

     O que distingue um prodígio nunca foi apenas a preparação. O verdadeiro diferencial continua sendo aquilo que nenhuma tecnologia consegue fabricar: a inteligência de corrida, a coragem para atacar quando todos hesitam e a rara capacidade de suportar sofrimento físico sem perder a lucidez. Essas características continuam sendo patrimônio exclusivo dos grandes campeões. Esse é o motivo que faz Tadej Pogačar ser um caso tão especial. Sua superioridade não se limita aos números. Ela está na forma como corre. Ataca quando ninguém espera, assume riscos que outros evitam e parece competir movido mais pelo prazer de vencer do que pelo medo de perder. Em uma era extremamente calculada, ele devolveu ao ciclismo uma espontaneidade que muitos julgavam perdida. 

    E o mais curioso é que o futuro promete ser ainda mais impressionante. Um jovem mineirinho de sorriso gigante, chamado Henrique Bravo (Bravinho para a nação) chega ao pelotão cercado por expectativas que a muitos anos pareceriam exageradas, um brasileiro no mais alto nível do World Tour. Um grande escalador capaz de glorias e feitos enormes para no País, mesmo com apenas 20 anos.

    Talvez estejamos vivendo uma mudança geracional comparável apenas às grandes revoluções que o ciclismo experimentou ao longo de sua história. O esporte tornou-se mais rápido, mais científico e mais exigente. Paradoxalmente, também voltou a ser mais emocionante. Os jovens já não esperam sua vez. Eles entram na elite para disputar vitórias desde o primeiro dia. Sabemos que nem todo prodígio confirmará as expectativas, e isso faz parte da natureza do esporte. Ainda assim, quando olharmos para trás daqui a vinte ou trinta anos, é provável que nos refiramos à década de 2020 como um período singular. Uma época em que vários talentos extraordinários coincidiram no tempo, elevaram o nível da competição e devolveram ao ciclismo um ingrediente que nunca deveria faltar: a capacidade de nos fazer acreditar que o impossível pode acontecer na próxima montanha, na próxima curva ou no próximo ataque.

    Os prodígios sempre existiram. A diferença é que, hoje, temos o privilégio de vê-los correr juntos. Dale Bravo, Arrocha!!!

     

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