• Início
  • Journal
  • Por que o Tour de France nos fascina tanto
  • Por que o Tour de France nos fascina tanto

    Por que o Tour de France nos fascina tanto

    Minha primeira lembrança do Tour de France não tem nada a ver com ciclismo. Em 1993, eu era uma pré-adolescente quando meus pais viajaram para a França. Eles não eram ciclistas; eram paraquedistas e cruzaram o Atlântico para desbravar os céus franceses. Na volta, trouxeram na mala uns souvenirs com a inscrição "LE TOUR". Entre eles, um bonézinho esquisito com a aba virada para cima. Eu não fazia a menor ideia do que significava aquilo e ficou perdido como uma lembrança sem contexto.


    Fui entender o que era o tal "Le Tour" alguns anos depois, no início dos anos 2000, na tela do cinema assistindo a uma animação francesa chamada As Bicicletas de Belleville. O filme é uma obra-prima expressionista, quase sem diálogos, que mostra o Tour de France de um jeito grotesco e fascinante. Os ciclistas são desenhados com pernas gigantescas e costas absurdamente curvadas. O protagonista, Champion, é treinado de forma obsessiva por sua avó, Madame Souza, que comanda a rotina do neto à base de apitos, massagens e uma dieta milimetricamente calculada, nada diferente do que vemos nos dias de hoje. Foi vendo aquela distopia em formato de desenho animado que a ficha caiu: aquele boné esquisito que meus pais trouxeram de Paris era um cap e o Tour de France era a prova de endurance mais difícil do planeta.


    Anos mais tarde, quando comecei a pedalar com bicicletas de estrada, passei a olhar para o Tour com verdadeiro fascínio. Mas o que sempre me despertou curiosidade ao ver as imagens do antigo Tour, da época em que o cap era parte integrante do uniforme obrigatório, foi a insanidade daqueles ciclistas. Como eles tinham a coragem de descer pirambeiras alpinas a 80 ou 100 km/h, em estradas de terra batida e cascalho, sem capacete? Aquele bonézinho esquisito que eles usavam, igual ao souvenir que meus pais me trouxeram da França, jamais protegeria a cabeça deles. Aquilo não era só esporte, era um flerte deliberado com a morte. Mas o que nos prende tanto nessa dinâmica de perigo e superação? Por que o Tour de France nos fascina tanto? 


    A psicanálise nos ajuda a fazer uma leitura desse mistério através de um conceito central na teoria de Sigmund Freud: a pulsão de morte. Ao contrário do que o nome sugere, essa força não é um desejo literal de deixar de existir, mas uma tendência humana de buscar o excesso, de romper as barreiras protetoras do ego e ir em direção ao absoluto mesmo que isso custe caro ao corpo. O Tour de France é um dos maiores anfiteatros do mundo para a encenação dessa força que nos habita.

    Existe algo profundamente magnético em assistir a um ciclista ralar a cara no chão a uma velocidade absurda, rasgar a roupa, levantar sangrando e continuar pedalando montanha acima como se nada tivesse acontecido. O psicanalista francês Jacques Lacan, que viveu o século XX inteiro acompanhando a cultura de seu país, nunca escreveu uma linha sobre ciclismo até onde se sabe. Mas, se estivesse vivo observando a prova nos dias atuais, possivelmente explicaria esse nosso fascínio pelo Tour através do conceito de gozo e, para não perder a oportunidade de gastar meu francês, jouissance. É que Lacan gostava de fazer brincadeiras com a própria língua francesa para subverter conceitos rígidos. E se observarmos bem, a palavra jouissance carrega em sua própria raiz o verbo jouer (jogar, brincar) e ecoa o substantivo joie (alegria), todos com sonoridades bem semelhantes.


    Nosso fascínio nasce de testemunhar esse jogo sério acontecendo naquelas montanhas. Não estamos diante de um sofrimento cego ou de um masoquismo sem sentido, mas de uma brincadeira de alto risco com o limite. 


    A ironia máxima desse flerte com a morte é que ele é, paradoxalmente, transbordante de vida. É preciso estar demasiadamente vivo para dar a volta na França de bicicleta em pleno mês de julho sob o sol escaldante do verão europeu. Nós vemos esse mesmo vigor hoje pela performance avassaladora de um Tadej Pogačar quebrando recordes nas subidas históricas. Ele parece brincar com os limites da fisiologia humana, destruindo o pelotão com a leveza e a alegria de uma criança correndo no quintal de casa. É o gozo que reencontra o lúdico e a alegria vital. 


    Nós não assistimos ao Tour de France apenas para ver quem vai vestir a camisa amarela (le maillot jaune) na próxima etapa e quem vai chegar primeiro na Champs Elysées. Nós assistimos porque precisamos desses heróis modernos que topam encarar o abismo. Sejam os pioneiros de cap nas estradas de cascalho ou os ciclistas modernos hipermonitorados, o esporte encena o drama de testar as fronteiras do que o corpo pode suportar. Eles flertam com o limite para nos lembrar de que o esporte é uma excelente 

    forma de nos sentirmos vivos de verdade.

     

    Compartilhe este post

    Deixe um comentário