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    Superação não é sacrifício

    Tem uma cena que me gera um incômodo danado: a de um atleta em colapso, totalmente sem forças nas pernas, se arrastando para conseguir cruzar a linha de chegada de uma maratona ou de um Ironman. E não é à toa que esse tipo de vídeo viraliza nas redes. As pessoas assistem fascinadas, os comentários viram uma orquestra de aplausos e, na legenda, vem estampada em caixa alta aquela famosa frase: "O seu corpo aguenta o que a sua mente acredita."

    Se isso viraliza tanto, é porque sem dúvidas toca num ponto cego da nossa cultura.

    Mas não sou contra a dedicação, a disciplina ou o desejo de superar marcas — muito pelo contrário. Como triatleta e psicóloga esportiva, sei o valor transformador do esporte e o quanto a nossa força psíquica nos sustenta em momentos duros. O meu problema não é com a determinação. O meu problema é com a lógica perversa que essa cena carrega nas entrelinhas.

    Já parou para pensar na crueldade dessa ideia? Ela vende a ilusão de que a mente é um chefe soberano e o corpo, um funcionário submisso. Se o seu corpo falha, adoece, lesiona ou simplesmente colapsa, a culpa velada cai sobre a sua mente, que "não acreditou o suficiente" ou "foi fraca".

    A gente herdou essa divisão cartesiana de achar que a mente manda e o corpo obedece. Só que, na cultura da performance em que vivemos hoje, essa lógica ganhou um contorno perigoso. O corpo passou a ser tratado como um equipamento que precisa ser otimizado, silenciado e levado ao limite a qualquer preço. Enviou um sinal de dor? Toma um analgésico, engole o choro e continua.

    Só que a psicanálise aponta para uma direção completamente oposta: essa divisão entre mente e corpo não se sustenta. Nós não temos um corpo como quem tem uma bike pendurada na parede da sala. Nós somos um corpo.

    O corpo que a gente escuta na clínica não é só um conjunto de músculos, tendões e watts. É um corpo atravessado por afetos, por histórias, por desejos e, acima de tudo, por limites.

    Quando a gente aceita sem questionar que "o corpo aguenta tudo", a mente deixa de ser uma aliada e vira uma tirana. Você já parou para pensar na diferença entre superação e sacrifício?

    A superação nasce do desejo. É aquele movimento bonito de explorar as nossas capacidades, encarar o desconforto do treino, mas reconhecendo o contorno do possível. Na superação, o limite é um dado da realidade. Já o sacrifício responde a uma cobrança. É a necessidade compulsiva de provar algo a qualquer custo, seja para a validação do Instagram, para o grupo de treino ou para uma exigência interna de perfeição que nunca se satisfaz. No sacrifício, o limite é tratado como uma falha moral.

    Quando vejo alguém se arrastando em colapso total para cruzar um pórtico, o que vejo ali não é a vitória da mente sobre o corpo. É o sinal trágico de que a escuta de si foi interrompida. O colapso é o recurso extremo do corpo para dizer: "Já que você não parou por escolha, eu paro por você."

    Isso não é um julgamento para quem já passou por isso. É fácil ser capturado pela promessa de que podemos controlar tudo se nos esforçarmos mais um pouquinho. A fantasia de que a gente pode tudo é sedutora porque tenta nos proteger da nossa própria vulnerabilidade.

    Mas encarar o limite do corpo não é fraqueza mental. É o que nos mantém inteiros.

    A psicanálise nos lembra o tempo todo que a fantasia do "eu posso tudo" precisa esbarrar em um limite real para que a vida continue sendo sustentável. O limite não existe para nos travar, ele existe para nos dar contorno e nos proteger.

    Saber a hora de diminuir o ritmo, de recalcular a rota ou até de soltar o chip e abandonar uma prova quando o corpo dá sinais claros de esgotamento não significa que você falhou. Significa apenas que você foi capaz de escutar a sua existência antes que ela precisasse colapsar para ser notada.

    O esporte e a vida ganham muito mais sentido quando a gente para de guerrear contra a gente mesmo. Mente e corpo não são adversários disputando quem manda mais, são a nossa própria vida em movimento.

     

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