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    Existe uma diferença entre otimizar o ciclismo e cultivar o ciclismo como uma experiência

    E se os dois pudessem caminhar juntos?

    O esporte me ensinou a buscar eficiência.

    Como melhorar o FTP.

    Como distribuir melhor a intensidade.

    Como recuperar mais rápido.

    Como comer para render. Inclusive eu trabalho com essa parte!

    Como treinar para evoluir.

    Essas perguntas me fizeram crescer como atleta amadora e como profissional. Elas continuam sendo importantes.

    Mas, com o tempo, comecei a perceber que havia uma pergunta que aparecia cada vez menos.

    Como eu me sinto enquanto construo tudo isso?

    Porque existe uma diferença entre otimizar uma prática e cultivar uma experiência.

    Otimizar é buscar o melhor resultado com os recursos disponíveis.

    Cultivar uma experiência é prestar atenção na forma como aquele caminho é vivido.

    As duas coisas não competem entre si.

    Na verdade, acredito que se fortalecem.

    O ciclismo pode ser um treino estruturado, guiado por potência, frequência cardíaca e metas de desempenho.

    E também pode ser o vento no rosto depois de uma semana difícil.

    O silêncio de uma estrada cercada por montanhas.

    A conversa que acontece naturalmente durante um giro leve.

    O café compartilhado ao final do pedal.

    A roupa que você escolheu porque veste bem o corpo, mas também porque faz você se sentir presente.

    Nada disso aparece no TrainingPeaks.

    Nenhum desses momentos melhora diretamente seu FTP.

    Mas talvez eles alimentem algo que nenhum gráfico consegue medir: o desejo de continuar.

    Existe uma cultura muito forte de otimização.

    Dormir para recuperar.

    Comer para performar.

    Treinar para evoluir.

    Descansar para render.

    E tudo isso faz sentido.

    Mas, quando toda experiência passa a existir apenas em função de um próximo resultado, corremos o risco de transformar aquilo que amamos em mais uma tarefa a cumprir.

    A performance deixa de ser consequência de uma relação saudável com o esporte e passa a ser a única justificativa para praticá-lo.

    E talvez seja justamente aí que muitas pessoas se afastam.

    Porque ninguém permanece durante anos sustentado apenas por disciplina.

    Permanecemos porque existe significado.

    Porque existe beleza.

    Porque existe prazer.

    A experiência não é um detalhe do esporte.

    Ela é parte dele.

    Talvez por isso algumas pessoas nunca esqueçam um treino específico.

    Não porque foi o dia do maior FTP.

    Mas porque o céu estava diferente.

    Porque o grupo estava completo.

    Porque a subida parecia interminável e, ainda assim, havia risadas.

    Porque, por alguns instantes, não existia mais nada além daquele momento.

    Começo a acreditar que a beleza também tem uma função.

    Ela amplia nossa presença.

    Ela nos convida a perceber o caminho, e não apenas o destino.

    Ela transforma repetição em ritual.

    E é justamente o ritual que sustenta a constância.

    Talvez a pergunta não seja mais apenas:

    "Como posso render mais?"

    Mas também:

    "Como posso viver essa experiência de forma mais inteira?"

    Porque o ciclismo pode ser eficiente.

    Pode ser estratégico.

    Pode ser técnico.

    E também pode ser belo.

    No fim, não acredito que precisemos escolher entre performance e contemplação.

    Acredito que os melhores caminhos são aqueles em que uma fortalece a outra.

    Talvez o verdadeiro desempenho não esteja apenas em chegar mais longe.

    Mas em continuar encontrando motivos para voltar à bicicleta, semana após semana, ano após ano.

    E, para mim, esses motivos quase sempre passam por algo que não cabe em uma planilha:

    a experiência de estar verdadeiramente presente enquanto pedalo.

     

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