• Início
  • Journal
  • Pelo direito de ser ruim
  • Pelo direito de ser ruim

    Pelo direito de ser ruim

    Uma vez escutei uma pessoa dizer: "Eu não sei ser ruim nas coisas que eu faço". Eis que, pouco tempo depois, essa mesma pessoa decidiu virar triatleta. Para quem mal dominava a corrida, o choque de realidade veio rápido. Ela teve que aprender a nadar do absoluto zero, aquela humilhação de aprender a respirar de um jeito completamente contra a nossa natureza, lutando contra o próprio desespero enquanto toma uma volta de 50 metros de uma senhora sexagenária dividindo a raia com você. Depois, precisou aprender a pedalar de verdade, para muito além de apenas se equilibrar em duas rodas e seguir em frente.

    Costumo brincar que o triathlon é um esporte fascinante porque não basta ser ruim em uma modalidade só; nele, nós temos o direito de ser ruim em três. É um esporte demasiadamente difícil para que o mero mortal seja impecável em tanta coisa ao mesmo tempo. Inclusive já ouvi até atleta profissional dizer isso. Exige uma dose cavalar de humildade para aceitar que, cedo ou tarde, você vai sobrar no pelotão. Mas suportar esse desconforto inicial é para poucos.

    Sustentar essa rotina com constância exige equilibrar os pratos com a nossa própria autocobrança. O problema é que, no mundo moderno, nós ganhamos o artifício de terceirizar esse chicote para a tecnologia. Dizem que o Apple Watch é aquele amigo gente boa e compreensivo, que te dá parabéns por dar uma caminhada e diz que você é incrível. Já o Garmin é o puro suco da toxicidade. Você acorda e ele te avisa que o seu sono foi ruim; você se mata em um treino e ele joga na sua cara que o status do treinamento está improdutivo. Se eu der ouvidos a tudo o que ele me diz, eu vou enlouquecer, porque para ele nunca nada está bom o suficiente.

    Eu costumo dizer que o Garmin é, literalmente, o meu superego de pulso. O Superego, ou, em uma tradução mais literal do alemão de Freud, o Über-Ich (o "supereu") é, por definição, esse "ego" inflado, tirânico e profundamente imperativo que habita em nós. Sigmund Freud o descreveu como essa voz interna que funciona como um juiz implacável. É o herdeiro das ordens, das proibições e das expectativas que internalizamos ao longo da vida. Uma agência reguladora que fica o tempo inteiro no nosso ouvido sussurrando, ou gritando que falhamos.

    Para compreender a dimensão e o rigor dessa instância na clínica psicanalítica, vale observar o que ocorre nas psicoses, como na esquizofrenia. Nela, o supereu se manifesta de forma radical: são aquelas vozes literais que o paciente ouve do lado de fora, dando ordens, xingando ou julgando seus passos. O psicótico não consegue diferenciar a voz da realidade; para ele, aquilo é um fato externo e real.

    Mas no fundo, todo mundo é um pouco "esquizo" nesse sentido. Todos nós temos essas vozes na cabeça. A grande diferença não é a existência da voz, mas a forma como damos ouvidos a ela. Alguns chamam de "pensamentos intrusivos", "síndrome do impostor" ou "sabotadores". Mas não se engane com a maquiagem gourmetizada: todos eles são crias legítimas do supereu. É a mesma engrenagem punitiva operando na escuridão da nossa mente ou no nosso Garmin.

    No esporte de endurance, o supereu encontra o disfarce mais socialmente aceito do mundo moderno: ele se veste com as roupas da "alta performance", da "disciplina inabalável" e do "foco no objetivo". Você passa a acreditar piamente que aquele chicote mental é o combustível que o move. "Se eu não for duro comigo, eu não saio da cama às 4h30 da manhã", a gente justifica. Mas há uma linha tênue e perigosa entre a disciplina saudável e o sadismo contra o próprio corpo.

    Mas você poderia ser muito melhor se não quisesse ser tão bom. Quando a obsessão por ser impecável assume o controle total do guidão, o esporte perde completamente a sua potência de vida e passa a operar na chave da neurose. A busca cega por um ideal de perfeição. A planilha 100% verde no TrainingPeaks ou o algoritmo do relógio, consome uma energia psíquica enorme. Você gasta tanta força tentando aplacar a fúria do seu juiz interno, tentando provar que não é "ruim", que não sobra energia para o que realmente importa: a fluidez, o ritmo orgânico, a leitura do próprio corpo e o prazer genuíno do movimento.

    O supereu é insaciável, igualzinho ao algoritmo. Se você entrega o treino no tempo previsto, ele diz que você deveria ter sofrido mais. Tentar agradar a esse juiz é uma batalha perdida. A ironia máxima é que essa cobrança excessiva é o que mais sabota o rendimento. Para evoluir e ser bom de verdade em alguma coisa, é preciso primeiro suportar o desconforto e exercer o direito de ser ruim de vez em quando. É preciso dar espaço para a falha, para o dia de cansaço, para o treino "improdutivo" que, na verdade, é só o corpo pedindo descanso. A segurança e a consistência de longo prazo no esporte não sobrevivem à base de chicotadas diárias; ela se sustenta quando aprendemos a negociar com esse ditador interno.

    Na próxima vez que você olhar para o punho e se angustiar porque o status do treinamento está improdutivo, que tal mudar a sua relação com essa voz? Reconheça o dado, mas não leve o algoritmo nem o seu superego tão a sério. Afinal, se até os atletas profissionais aceitam que o esporte é a arte de administrar e equilibrar as nossas próprias fraquezas em três modalidades diferentes, quem é o Garmin para exigir que você seja perfeito em tudo?

     

    Compartilhe este post

    Deixe um comentário