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    O melhor conselho que já ouvi de um campeão mundial

    "Jamais deixem de ser pebas". Sim, esse foi o conselho que nada mais, nada menos que Henrique Avancini deu para um ciclista amador durante um talk na inauguração de uma loja de bike aqui na minha cidade. Enquanto o público esperava uma fórmula mágica de disciplina, constância e frases motivacionais, o campeão mundial me veio com essa, surpreendendo todo mundo com um belo convite à leveza.

    Mas, afinal, o que um campeão como ele quis dizer com isso? Algo muito simples e que muitas vezes a gente deixa de lado para não "fazer feio" no Strava: que a gente nunca deve perder o prazer de pedalar. Ter aqueles momentos de desencanar do Garmin e não olhar para os números, apenas para contemplar a natureza e fazer aquela parada estratégica num botequim de beira de estrada, comer um pastel e tomar um caldo de cana.

    A questão aqui não é um elogio à mediocridade, muito menos que devemos abandonar a busca pela nossa melhor versão - apesar de questionar muito esse discurso, porque ele gera uma competitividade com a gente mesmo que é perigosa. Muitas vezes, essa cobrança incansável de ser "1% melhor todo santo dia" acaba nos entregando a nossa pior versão: uma versão sem vida social, com o nível de estresse nas alturas e uma HRV pra lá de desequilibrada.

    Às vezes, buscar ser melhor implica, justamente, em apertar o freio, girar na marcha mais leve e abraçar momentos de simplicidade e descompressão. Afinal, alcançar a alta performance é atravessar uma estrada sinuosa, cheia de altos e baixos. Já percebeu que na própria periodização do treinamento não tem carga o tempo todo? Existem os blocos de volume e de intensidade, mas existem — e são vitais — os momentos de recuperação. O corpo precisa regenerar para evoluir. É a famosa história de que "descanso também é treino", algo que eu também questiono, porque acho complicado colocarmos o descanso sempre dentro dessa lógica produtivista. Senão, de tanto buscar gerar mais watts no pedal, a gente começa a querer um sleep score acima de 90 no Garmin a qualquer custo. Além de buscar a "melhor versão" no esporte, a gente passa a querer buscar a nossa melhor versão até dormindo!

    Isso me faz pensar no que o filósofo Byung-Chul Han descreve em A Sociedade do Cansaço. Ele explica que hoje não precisamos mais de um feitor nos vigiando; nós nos tornamos carrascos de nós mesmos. Nós nos exploramos voluntariamente em busca de um desempenho ilimitado, achando que isso é liberdade. No esporte, isso é perigoso: transformamos o que deveria ser lazer e diversão em mais um "empreendimento" cheio de boletos a serem pagos com um custo altíssimo para a nossa saúde física e mental.

    Han defende que a contemplação é o que nos salva dessa autodestruição, e o "pedal peba" que o Avancini aconselha é a nossa válvula de escape. É o momento de baixar o fogo e tirar a pressão da panela para ela não explodir e destruir a cozinha toda. É a descompressão necessária para que o desejo pelo esporte não seja sufocado pela obrigação do resultado.

    Neste Dia do Ciclista, meu desejo é que a gente também busque esse lugar do prazer na estrada. Que a gente continue a se divertir sobre duas rodas, sentindo o vento na cara sem precisar conferir a potência a cada minuto. Que a gente saiba ser atleta quando precisa, mas que jamais deixe de ser peba também. Se o Henrique Avancini, com tantos quilômetros rodados e o peso de seus troféus e medalhas, ainda consegue ter essa leveza e nos faz esse convite, quem somos nós para questionar?

    Paula Figueira é Psicóloga Esportiva, Psicanalista e Triatleta Amadora. No Instagram @paulafigueirapsi compartilha reflexões sobre o "avesso da performance" e é defensora de um pedalzinho peba de vez em quando pra manter a saúde mental em dia,

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