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    Cetogênica vs Alto Carboidrato no Ciclismo

    Bioenergética, rendimento e a variável que quase ninguém mede

    O debate entre dieta cetogênica (LCHF – low carb high fat) e estratégias com alta ingestão de carboidrato no endurance raramente é superficial.
    Ele envolve fisiologia, economia metabólica e potência relativa.

    Mas ele também costuma ignorar uma dimensão central: o impacto sistêmico fora do laboratório.

    Vamos por partes.


    1.      Substrato energético e intensidade relativa

    A ressíntese de ATP durante exercício prolongado ocorre principalmente via:

    • Oxidação de ácidos graxos
    • Oxidação de glicose/glicogênio
    • Metabolismo de lactato

    A contribuição depende da intensidade:

    • < 60–65% VO₂max: predominância lipídica
    • 70–85% VO₂max: aumento progressivo do uso de glicogênio
    • > 85% VO₂max: alta dependência glicolítica

    Quanto maior a intensidade relativa, maior a necessidade de geração rápida de ATP.

    E aqui está o ponto central do debate.


    2.      Oxidação de gordura vs carboidrato: eficiência metabólica

    A gordura fornece mais energia total por grama, mas:

    • Exige maior consumo de oxigênio por ATP produzido
    • Possui menor taxa máxima de geração de ATP

    Estudos conduzidos por Jeff Volek demonstraram que atletas adaptados à cetogênica podem atingir taxas de oxidação de gordura superiores a 1,5 g/min ( o que sinceramente não se traduz em muita coisa na prática).

    Por outro lado, pesquisas lideradas por Louise Burke mostram que a adaptação à LCHF:

    • Aumenta oxidação lipídica
    • Reduz economia de exercício em intensidades competitivas
    • Pode elevar o custo de oxigênio para determinada potência

    O problema não é estoque energético total.
    É taxa de geração de energia sob demanda.


    3. Rendimento vs Concluir: a distinção fisiológica

    Essa diferença raramente é explicitada. E aí que tá: nos esportes de Endurance a mensuração de resultado é: quem chega mais rápido em determinado tempo.

    Concluir uma prova

    Exige:

    • Estabilidade energética
    • Ritmo constante
    • Baixa variabilidade de intensidade

    Aqui, alta capacidade de oxidação de gordura pode ser suficiente. De repente para você que não se importa em que posição vai chegar.


    Render em uma prova

    Exige:

    • Sustentação de potência elevada
    • Repetição de estímulos acima do limiar
    • Recuperação rápida entre variações
    • Preservação da via glicolítica

    Em cenários competitivos com variações de ritmo, a limitação é a taxa de geração de ATP — e a via glicolítica é superior nesse aspecto.


    4. O que a evidência mostra hoje

    Meta-análises indicam que:

    • LCHF aumenta oxidação de gordura
    • Não melhora desempenho em intensidades ≥ 75–80% VO₂max
    • Estratégias com alta ingestão de carboidrato continuam associadas a melhor rendimento competitivo

    Além disso, cresce o uso de periodização de carboidrato:

    • Treinar com menor disponibilidade
    • Competir com alta disponibilidade

    O debate não é mais sobre dieta fixa, mas sobre estratégia metabólica contextual.


    5. A variável que quase nunca entra na discussão

    A maior parte dos estudos avalia:

    • VO₂max
    • Tempo de prova
    • Economia de exercício
    • Oxidação de substrato

    O que raramente é mensurado de forma robusta:

    • Qualidade de sono profundo (REM e N3)
    • Variabilidade da frequência cardíaca (HRV) crônica
    • Atividade do sistema nervoso autônomo
    • Humor e estabilidade cognitiva
    • Percepção de qualidade de vida ao longo de meses

    A restrição crônica de carboidrato pode, em alguns indivíduos:

    • Reduzir disponibilidade de triptofano cerebral
    • Alterar síntese de serotonina
    • Aumentar atividade simpática
    • Elevar cortisol em contextos de alto volume de treino

    Mas esses efeitos são altamente individuais.

    Não há evidência robusta demonstrando que dieta baixa em carboidrato:

    • Melhore consistentemente qualidade de sono
    • Preserve recuperação autonômica
    • Otimize qualidade de vida em atletas de alta carga crônica

    Também não há evidência universal mostrando que piore em todos.

    O ponto é outro:

    O impacto sistêmico fora do laboratório é pouco mensurado.

    E essa é uma lacuna real na discussão científica.


    6. A conclusão técnica (e madura)

    O problema não é cetogênica versus carboidrato.

    O problema é generalização.

    Endurance não é apenas metabolismo muscular.
    É sistema nervoso, sono, recuperação, vida social, carga mental e consistência ao longo de anos.

    Dois atletas podem ter a mesma potência.

    Mas sistemas nervosos diferentes.
    Demandas de vida diferentes.
    Histórico hormonal diferente.
    Tolerâncias metabólicas diferentes.

    A pergunta correta não é:

    “Qual dieta é melhor?”

    É:

    Qual estratégia é metabolicamente adequada para este atleta, nesta fase, para esta demanda de prova e para esta vida real?

    Porque performance não é ideologia.

    É contexto.

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