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    Um dos maiores deste século (até agora)

    por Leandro Bittar

    Nesta segunda-feira, durante a gravação do podcast Gregario Radio, eu fiz uma brincadeira com o Nicolas Sessler que eu replico para você: onde você estava em 16 de março de 2002? Pedalava?

    Essa é a data de nascimento do belga Arnaud de Lie, da equipe Lotto-Soudal. Ele venceu neste domingo a última das cinco provas que compõem o Challenge de Mallorca, um evento atípico. São dias seguidos, mas não é uma volta. Bom, isso não é relevante agora e também está no podcast se você ficou interessado.

     Será que um dia teremos um campeão nascido 2/2/2022?

    O curioso aqui é que um dia antes, o ciclista mais ‘velho’ do pelotão WT também conquistou sua vitória. O espanhol Alejandro Valverde levou Trofeo Pollença – Port d’Andratx. E onde está a conexão entre o feito do menino de 19 anos e do senhor que completará 42 anos em abril? Valverde já era profissional no dia que Arnaud de Lie nasceu. Enquanto o belga estava literalmente na maternidade, o espanhol corria a Tirreno-Adriático com a equipe Kelme em seu primeiro ano como PRO.

    Valverde correu 3 temporadas com a Kelme – Costa Blanca.

    O Bala – como também é conhecido Valverde – promete que esta será a última temporada na elite do ciclismo. São 20 anos competindo no mais alto nível (com um breve hiato que citaremos adiante). Por isso, comparações como a que iniciamos a conversa abundam. Valverde compete hoje com um pelotão que ele “viu nascer”. E se você me permite mais uma efeméride, poucos dias após o nascimento de Vinicius Rangel, Valverde se tornava campeão espanhol sub-23. (PS: neste sábado os dois devem correr lado a lado na estreia do brasileiro, na Volta de Murcia!)

    Para seu último ano na Movistar, Valverde montou um calendário de despedida com uma longa lista de eventos espanhóis e também clássicas importantes como Strade Bianche, Volta de Flandres e suas ‘Pérolas Ardenas’: Flèche-Wallonne e Liège-Bastogne-Liège, eventos que ele já venceu 5 e 4 vezes, respectivamente. No cardápio também duas grandes voltas: Giro e Vuelta. Notoriamente, não está muito a fim de ir embora. Mas acho que dessa vez ele vai. Uma pena.

    Valverde dominou o Mur de Huy, que agora pertence a Alaphilippe (esq.).


    Valverde tem 131 vitórias profissionais e esse número seria sensivelmente maior se não fosse o período de suspensão pelo envolvimento no Caso Puerto, lá em 2006, que se arrastou e o fez perder os resultados de 2010 e ficar fora das competições em 2011. Mas, olha que curioso, em números absolutos, Valverde venceu mais depois desta punição do que antes. Ou seja, antes dos 30 anos ele somou 60 vitórias (via procyclingstats) e depois dos 31 já são 71, incluindo o título mundial em 2018.

    Não é só uma questão de longevidade. Mas quase de melhorar com o tempo. O espanhol tem um panache e um talento indiscutíveis. E tem também muita disciplina para se manter em alto nível por tanto tempo. Dá para notar isso nos detalhes, como nas temporadas do documentário “O dia menos esperado”, publicados no Netflix. Antonio Carlos Silvestre, um dos grandes ciclistas brasileiros e figura recorrente no staff da Movistar, contou ao Gregario que no Mundial de 2018 todos se esbaldavam e alguns companheiros de seleção até passavam do limite na festa do título, enquanto o campeão mundial Valverde se mantinha na linha, com a tradicional pasta feita pelo cozinheiro de sempre.

     Valverde bateu na trave diversas vezes, mas conseguiu seu título mundial

    O histórico de ciclistas que passaram dos 40 no pelotão World Tour traz uma boa lista de nomes. Filtrar aqueles que, como Valverde, venceram provas relevantes como decano do pelotão, já reduz bastante. Jens Voigt, o alemão consagrado nas equipes CSC e Leopard Trek é um dos poucos exemplos, com vitórias em 2012 e 2013. Curiosamente, ele era mais velho do que seu companheiro de equipe Chris Horner, quando o norte-americano venceu a Vuelta a España de 2013, também com mais de 40. Outro feito surpreendente e raríssimo. Completamente off-topic, mas Voigt e Valverde também tem em comum a larga prole. O alemão tem seis filhos e o espanhol cinco.

    Como tinha que ser, a última vitória de Voigt foi escapado, em 2013, na Volta da Califórnia.

    No feminino, são muitos exemplos de ciclistas que passam dos 40 em alta performance, principalmente, quando focam no contrarrelógio. Kristin Armstrong tornou-se tricampeã olímpica no Rio aos 43 anos. E isso traz uma reflexão importante logo após o 8º título mundial de ciclocross da holandesa Marianne Vos, também nesse final de semana. Com 238 vitórias (só na Estrada), Vos tem apenas 34 anos de idade. 

    Porém, quando falamos de longevidade no ciclismo, lembramos também de Davide Rebellin, que aos 50 anos também promete se aposentar esse ano e, principalmente, da francesa Jeannie Longo. Dona de 9 títulos mundiais elite de Estrada e CRI, Longo foi campeã francesa em 1979 e também em 2011. Ela correu seu último mundial aos 52 anos, e não fossem as polêmicas com os seus ‘whereabouts’ que quase a suspenderam, provavelmente, teria corrido a Olimpíada de Londres, em 2012 (tendo participado também na de 1984 (!). Infelizmente, ainda em 2011, seu marido e treinador Patrice Ciprelli foi flagrado com um grande porte de EPO, que segundo ele era para uso terapêutico, mas que ofuscou um pouco a longa e vitoriosa imagem de Longo. Ela ainda regionalmente e em campeonatos nacionais elite até 2016, aos 58 anos.

    Termino o texto recomendando uma entrevista com o ciclista espanhol Luis Angel Mate, de 37. De uma forma bem simples e direta ele comenta sobre a longevidade no esporte dos grandes campeões, mas do ponto de vista de um gregário. Ele usa uma palavra que eu não poderia escolher melhor. A longevidade é uma das expressões de uma paixão. LEIA AQUI

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