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    O despertar da mulher que pratica esporte e dá conta de tudo

    Da exaustão à saúde feminina, ser mulher e praticar esporte dentro de um cenário que favorece rotinas exaustivas de trabalho já começa com fortes limitações hormonais fisiológicas, sociais, ancestrais, culturais e econômicas, claro. Afinal, trabalho de casa não é renumerado e trabalhamos fora.

    Neste texto você vai entender o porquê você deve praticar esporte, dar conta de tudo sim, mas também saber a hora de procurar ajuda e se questionar se o que está sendo feito está de acordo ao que deseja viver no esporte e na vida

    E tudo começa porque temos menos testosterona. Brincadeiras à parte, é verdade que homens possuem naturalmente níveis maiores de testosterona, o que pode favorecer que eles tenham uma recuperação mais rápida e acentuada entre um treino e outro e mais músculos considerando as mesmas condições da aplicação de treinos. A parte boa é que nós mulheres temos também uma capacidade de resistir à fadiga superior (DAVIES; CARSON; JAKEMAN, 2018).

    Mas isso aqui não é um romance, muito menos uma forma de depreciação de qualquer um dos sexos, já que ser mulher para mim é algo maravilhoso. Contudo, convém pensar com o lado direito e esquerdo do cérebro e evidenciar fatos e argumentos que demonstrem o que a citação da atriz Fernanda Lima nos traz:

    “A nossa saúde,

    O nosso trabalho,

    A nossa maternidade:

    É tudo neglicengiado.

    A gente é uma máquina

    Que move o mundo

    E a medicina tem que olhar para

    Nós [mulheres]”

     

    Quando Fernanda Lima cita “a medicina tem que olhar para nós mulheres”, vem uma preocupação pessoal enquanto profissional e mulher já quando exploramos a literatura sobre nutrição esportiva, que inclusive é uma das minhas especializações - nos nutrimos geralmente com um guideline referenciado e baseado em estudos conduzidos e aplicados em homens.

     

    As atletas mulheres representam quase 50% dos participantes de esportes. Quando entramos no mundo das pesquisas sobre a otimização da nutrição para a saúde e o desempenho específicos da fisiologia feminina, faltamos com muita informação. Temos aqui uma pesquisa que investigou três das principais revistas de medicina esportiva do mundo (British Journal of Sports Medicine, Medicine and Science in Sports and Exercise e American Journal of Sports Medicine) em que tiveram mulheres representando 39% dos participantes dos estudos e apenas 4% dos estudos eram apenas femininos (HOLTZMAN; ACKERMAN, 2021).

     

    De certa forma compreensível, nós mulheres menstruamos e isso faz com que a flutuação hormonal seja um fator que diferencia as respostas da aplicação dos mais diversos protocolos de estudos e, ainda há dois momentos da vida da mulher que não há menstruação: amenorreia primária (a mulher que não menstruou ainda) e menopausa (a mulher que menstruou durante sua fase reprodutiva e a menstruação então cessa). Outros fatores ainda que afetam essa limitação de aplicação do protocolo de estudo em mulheres são mulheres que por opção pessoal ou clínicas cessam o ciclo menstrual com uso de contraceptivos hormonais.

     

    E como ficaria na prática se considerássemos a mulher em seu ciclo menstrual, por exemplo, nos estudos? O que poderíamos melhorar nessa prescrição de treinos e qual o benefício?

     

    No início do texto comentei sobre o homem possuir mais testosterona e que isso pode ser benéfico, mas também acredita-se que os estrogênios tenham propriedades anabólicas que são benéficas para a construção e recuperação muscular da mulher. Ou seja, aumentar o volume de treinos ao longo do mês, reduzindo a intensidade em determinados dias pode ser uma ótima estratégia para tirar proveito de certos hormônios. Então na verdade não é que a mulher precisaria treinar realmente menos, mas a prescrição teria que ser mais pautada em otimizar os períodos do ciclo menstrual (ANTERO, 2024). Portanto, o benefício estaria exatamente em executar treinos de forma efetiva possibilitando uma evolução real e sustentável a mulher.

     

    Ainda em relação a nutrição esportiva, o carboidrato é o macronutriente que mais recebe atenção no esporte, em especial antes, durante e após o exercício. Dado que a disponibilidade de carboidratos é um fator limitante no desempenho do exercício, a redução é prejudicial ao desempenho do exercício de duas maneiras: a redução do glicogênio muscular leva à fadiga e à queda de intensidade, e a redução de carboidratos (glicose) no sangue, já que a nutrição neural central prejudica a cognição.

     

    E o que muda nas fases do ciclo menstrual? Parece que as taxas de gliconeogênese (aumento da reserva de glicogênio) são maiores na fase folicular do que a fase lútea em intensidades de exercício>50% VO2máx (CAMPBELL; ANGUS; FEBBRAIO, 2001). Então, talvez na fase lútea pode ser que o metabolismo seja alterado, exigindo estratégias nutricionais distintas a depender da fase do ciclo da mulher. Por exemplo: aumentar a disponibilidade de carboidratos na dieta na fase lútea pré e intra-treino pode ser mais importante do que na fase ovulatória. No entanto, essas recomendações sobre aumento de consumo de carboidratos são amplamente baseadas em estudos de atletas do sexo masculino e não específicas na fisiologia de atletas do sexo feminino. Parece também que o uso de contraceptivos orais confunde ainda mais o quadro de carga de carboidratos devido ao hormônio não fisiológico (HOLTZMAN; ACKERMAN, 2021).

     

    Esta questão ainda da falta de disponibilidade de carboidratos se levada a um contexto crônico e associada a um déficit energético importante e acentuado pode desencadear na mulher danos irreversíveis e levar a susceptibilidade da saúde óssea da mulher, bem como a alterações comportamentais e emocionais que ficam ainda mais afloradas a depender da fase do ciclo menstrual ou mesmo em mulheres que estão entrando em menopausa.

     

    Existe também o desafio entre aplicar protocolos de nutrição e esporte compatíveis a realidade da mulher e desafios que esta mulher encontra em sua vida pessoal e profissional. Esse texto fica ainda mais complexo quando a mulher é uma mãe solo, o que no Brasil é relativamente comum normal não. Segundo dados divulgados pelo IBGE, de todos os adultos brasileiros que moram sozinhos com os filhos, 86,4% são mulheres (IBGE, 2022). Outras nuances permeiam sobre este assunto, mas o extremo foi exposto neste número de forma proposital, já que é bem natural a mulher “que leva o mundo nas costas”, números não mentem.

    Mas a questão é, deveríamos mudar a forma de olhar o esporte e nutrição para a mulher? Sim, tanto profissionais como a própria mulher devem estar orientados de acordo a rotina em um todo e considerar questionar determinado protocolo quando isto ameaça sua qualidade de vida e a leva a desenvolver alguns sintomas e sinais como: cansaço e fadiga crônica, ausência de ciclo menstrual, distúrbios alimentares, fraturas por estresse etc.

    Desde minha faculdade em que meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) foi escrever sobre a Tríade da Mulher Atleta, hoje atualizado para a Deficiência Energética no Esporte (RED-s) tamanha a complexidade do assunto, vejo a importância da mulher e dos profissionais se situarem através da literatura, mas sobretudo estar presente com profissionais que possam levá-la a extrair seu máximo potencial enquanto mulher em sua fisiologia feminina.

    O despertar da mulher no esporte é simplesmente praticar esporte em sua máxima eficiência em energia, saúde e disposição e não na exaustão de treinos e volumes extenuantes com baixa aderência e consistência da mulher, encontrando o potencial de se expandir no esporte através da preservação de sua saúde considerando o aspecto da sua rotina e fisiologia feminina, levando o corpo a aumentar o seu limite em determinados períodos, com o encaixe de todo o processo assistido e supervisionado quando possível de profissionais qualificados que a levem ao caminho correto enquanto esta se expõe aos treinos e períodos e protocolos necessários para gerar estresse, adaptação e recuperação; sendo esta mulher uma atleta amadora ou profissional e, considerando que no Brasil, são poucas as mulheres que vivem exclusivamente do esporte.

    O despertar da mulher no esporte é um olhar a si mesma com amor e lógica que colocam a mulher para a longevidade no esporte e para o desempenho no lugar que ela se permita a não viver acentuados períodos de estresse e desafios extremos no próprio direito de ser mulher em sua rotina pessoal, profissional e social.

    As mulheres e homens que acompanharam o texto até aqui comentem e compartilhem. Abrir a consciência e informar esta lacuna é o primeiro passo para encontrar o caminho ideal da mulher inserida no contexto esportivo.

     

     

    REFERÊNCIA

     

    ANTERO, J. Epidemiological researcher at the Institut national du sport de l'expertise et de la performance. On March 12th, 2024

     

    CAMPBELL, S. E.; ANGUS, D. J.; FEBBRAIO, M. A. Glucose kinetics and exercise performance during phases of the menstrual cycle: effect of glucose ingestion. American journal of physiology. Endocrinology and metabolism, v. 281, n. 4, p. E817-25, 2001.

     

    DAVIES, R. W.; CARSON, B. P.; JAKEMAN, P. M. Sex differences in the temporal recovery of neuromuscular function following resistance training in resistance trained men and women 18 to 35 years. Frontiers in physiology, v. 9, p. 1480, 2018

     

    HOLTZMAN, B.; ACKERMAN, K. E. Recommendations and nutritional considerations for female athletes: Health and performance. Sports medicine (Auckland, N.Z.), v. 51, n. Suppl 1, p. 43–57, 2021.

     

    IBGE. Composição domiciliar e óbitos informados. Disponível em: <https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv102127.pdf>. Acesso em: 17 mar. 2025.

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    1 comentário

    Muito bacana a pauta e conteúdo! Um olhar no esporte mais detalhado a mulher é necessário

    Fred anyia

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