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    Devaneios de boteco: a era Pogi

    Em uma conversa de boteco escutei: Pogacar abriu as portas para algo nunca antes feito no mundo do ciclismo.

     

    Minto, não foi no boteco, foi em uma reunião semanal da empresa. Eu, Igor e Camila. Em meio às análises dos números da empresa e relatórios, vez ou outra achamos uma brecha para falar de tudo que está acontecendo nas equipes de bike.

    Normal. Uso a desculpa de que só abordamos tal assunto por que trabalhamos com bikes, mas no fundo é mais forte que a gente. Se fossemos uma empresa de papel higiênico cometeríamos o mesmo desvio de roubar alguns minutos corporativos para falar dos resultados do Giro. Como se fosse algo que tivesse tudo a ver com os relatórios das vendas de papel.

    O CCO da empresa (Ciclista Criativo Obsessivo) mandou no meio da reunião que o Pogacar fez algo que ninguém fez. Sabe, isso é uma pancada pra quem gosta de algum assunto, seja qual for.

    Na hora me veio à tona aquele post do Johan Bruyneel escurraçando - sem nenhuma classe, bem punk rock - uma comparação que colocava Pogi como maior que Merckx – algo que ainda não tinha aparecido em nossa reunião.

    “Escreve sobre isso, Breninho”

    De jeito nenhum. Escreve você, a ideia é sua. Tenho medo de levar uma patada do Bruyneel também. Mas o responsável pelos textos sou eu, então aqui estou dissecando aquela ideia de um CEO em um boteco. Ou seria um bêbado em uma reunião. Já estou perdido.

    O Lance Armstrong mudou tudo no mundo da bike, independentemente de você gostar dele ou não. Seja como pessoa ou como profissional, antes ou depois do escândalo do doping, é inegável que mais pessoas passaram a acompanhar o ciclismo e assistir o Tour de France por causa do fenômeno Lance.

    Muitas pessoas compraram o livro e a pulseira. E também compraram bicicletas.

    A aposta da vez é que o Pogacar está conseguindo levantar multidões da mesma forma.

    Não existe nenhuma necessidade de revisar os números e recordes dele, já nos bastam os gráficos dos relatórios semanais que estavam imóveis como pano de fundo na reunião que só falava sobre menino Pogi.

    “E ele faz isso sem se envolver em nenhuma polêmica”

    Nenhum resquício de cara fechada, é verdade. Lembrei do Cadel Evans espancando o microfone um repórter em meados de 2010. Parece que naquela época os rock stars sempre vinham acompanhados de certo... estrelismo.

    Existe um compilado de maiores estresses dos ciclistas durante corridas. Teve gente que saiu na mão com repórter, com público no meio das rodovias, atleta jogando a própria bike no chão ou principalmente com os adversários.

    Ver a nova geração liderar um Giro com o sorriso no rosto é de fato inédito. Rompe com uma cultura antiga de que o esporte deve levar o estresse das pistas para os quatro cantos da sua vida.

    A nova geração se inspirando em Pogi significa um esporte mais leve sem perder a alta performance.

    Já comparei o ciclismo com o skate em outros textos e sempre defendi que precisamos aderir à cultura amigável que os caras das quatro rodinhas mostram ao mundo.

    Se alguém faz uma manobra melhor que a sua, não é um motivo para que vocês briguem, mas sim para trocarem elogios e juntos desenvolverem mais e mais manobras inéditas.

    Seria legal se a mesma simpatia existisse quando um KOM é roubado, sem as infinitas ofensas e egos feridos.

    Mesmo com uma denuncia de suspeita em uma atividade do Strava, Pogi ensinou como manter o bom humor na tal disputa virtual. Isso tudo no meio do Giro.

    É fantástico e mostra um próximo patamar do esporte.

    E o mais importante é que fica bem previsível algo muito importante: ele pode nos decepcionar nos resultados, mas dificilmente em sua simpatia e bom espírito competitivo.

    Chegar no Tour de France e perder? Talvez. Dar chilique? Jamais.

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    2 comentários

    Simpático e atencioso. O que não ocorre com um outro ciclista arrogante.

    Arthur Biagioni Junior

    Simpático e atencioso. O que não ocorre com um outro ciclista arrogante.

    Arthur Biagioni Junior

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