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    Pedal solo X Pedal em grupo – o que muda?

    Todo mundo já sabe que o quesito segurança e performance passa por uma instabilidade quando decidimos sair para pedalar sem companhia. Mas, quais são os ganhos?

     

    Não é de hoje que escutamos as diversas dicas de redatores de ciclismo nos avisando para não pedalarmos desacompanhados. A sua segurança se esvai em um universo de possibilidades. Você se torna mais vulnerável à assaltos, menos visível no trânsito e, quando visto, menos respeitado. Você fica desacompanhado em caso de um acidente, dependendo somente de desconhecidos para te ajudar caso precise de socorro.

    É repetitivo dissecar mais uma vez os vários motivos que temos para não pedalarmos desacompanhados – além do simples fator lúdico de ter uma companhia que te indique novos caminhos, te faça rir em uma resenha durante o pedal, te motive etc.

    Mas qual é o lado bom de pedalar sozinho?

    Por incrível que pareça, tenho amigos de longa data que pedalam há muitos anos e nunca experimentaram um pedal solo. Deixaram de fazer os seus treinos programados quando não encontraram companhia. Outros até já pedalaram sozinhos, mas nunca em treinos maiores ou que envolviam explorar um lugar novo.

    Por mais que o ciclismo de estrada seja um esporte disputado por equipes, a bicicleta sempre vai ser um esporte individual e nós precisamos entender a profundidade disso.

    Existe um gap gigantesco entre um time de ciclismo conseguir colocar um atleta em primeiro lugar na chegada e um time de futebol que coloca a bola dentro do gol. Seria algo ridículo se propor a fazer um gol sozinho, sem nenhum time te auxiliando e time adversário enfrentando, mas é algo totalmente selvagem quando você se aventura a fazer um pedal de 100 km sem ter nenhuma alma viva ao seu lado.

    Certa vez escutava uma psicóloga que me contava sobre os benefícios da meditação e, a interrompi para dizer que eu gostaria de um dia poder experimentar tal prática. Ela riu de mim e disse que, com tantas cicloviagens que eu já tinha feito sozinho, passando até 16 horas pedalando sem companhia, por vários dias seguidos, eu é que deveria ensinar para ela sobre o segredo de meditar por tanto tempo.

    A bike é um exercício de meditação sem precedentes. É um momento que temos para colocar todo o lixo e preocupação da nossa cabeça para fora. Ou no mínimo, suspende-los durante aquele momento de aventura.

    Um dos grandes malefícios que temos na nossa rotina, cada dia mais acelerada, é o de estar com a cabeça em vários locais diferentes. Você está em uma reunião de negócios, mas preocupado com os boletos que vencem daqui a alguns dias. Está escovando os dentes, mas está pensando que amanhã pode chover durante o pedal. Está jantando com a família e preocupado com a política, economia ou qualquer avaria social.

    O esporte é magico por que ele não permite ser praticado com a cabeça cheia. Ninguém desce uma serra a 80 km/h preocupado com a alta do dólar. Você pode até começar um treino com a cabeça cheia, mas sempre vai termina-lo com a mente limpa e organizada.

    E o quanto mais você conseguir fazer o seu treino se dedicando única e exclusivamente à ele, sem pensar em nada além do que está acontecendo ali sob duas rodas, mais bem sucedido você foi.

    Escutar música enquanto pedala ou conversar com os amigos é uma ótima fonte de motivação e alegria para o nosso dia, mas nos distrai do objetivo de passar algum tempo focado em uma coisa só. Não que isso seja algo obrigatório para quem vai pedalar, mas é uma experiência que todos deveriam experimentar em algum momento, nem que seja por alguns 30 minutos afastado do pelotão que você tem o costume de andar sempre.

    Pensar sozinho, ou não pensar em nada, é um dos exercícios mais nobres do pedal solo. Entender como a sua cabeça funciona em um momento só seu é uma experiência profundamente pessoal que você leva para muitos momentos. A consciência corporal e mental que os treinadores dizem ser tão importantes, vêm do exercício de escutar o que está acontecendo dentro de você, não de fora.

     

    Por Breno Bizinoto

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