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    O desafio de montar um bom calendário anual

    Uma das tarefas mais complexas que um atleta e seu time de profissionais enfrentam ano a ano é a de definir o planejamento de provas anual.

    Já é conhecido que treinar e competir é a parte mais “mecânica e matemática” da vida de quem se aventura no esporte, enquanto outros assuntos mais subjetivos aparecem para quebrar a cabeça dos prós. É o famoso: “não existe receita de bolo”.

    É claro que nenhum tema no mundo do esporte é 100% matemático. Seja nutrição, bike fit, estímulos em treinos e as análises diversas devem adotar bastante flexibilidade para adaptar-se a cada atleta e suas particularidades, mas existe um tema em específico que me parece ser o mais particular e que demanda a maior personalização de atleta para atleta: a montagem do calendário anual de provas.

    Esse é o tema mais polêmico, pessoal e que envolve mais variáveis – desde performance, objetivos, até distância de onde o atleta mora para as suas competições foco – para chegar ao resultado final de um calendário satisfatório.

    Acontece que para cada prova foco, deve-se pensar principalmente na performance que o atleta pretende chegar lá.

    Vez ou outra o Henrique Avancini repete a história de um grande erro que ele cometeu em sua carreira, quando chegou no Cape Epic (acho que de 2018) com uma performance excessivamente alta.

    Ele conta que foi um erro estratégico estar em um pico de performance tão alto em uma prova que é competida em dupla. Ele traçou aquela prova como seu maior objetivo do ano e achou que por este motivo deveria colocar o maior pico de performance ali. Parece correto, mas ele mesmo identificou como um erro.

    Atletas de uma mesma equipe possuem calendários totalmente diferentes, seja uma dupla de ultramaratona ou um time World Tour, que coloca uma grande volta de 21 dias como foco da temporada.

    Com o sucesso de Vingegaard, muito tem se discutido sobre o planejamento necessário para se vencer um Tour de France. O Pogacar venceu boas clássicas ao longo do ano e mostrou ser o melhor – até topar com o Peixe, que só colocou um objetivo real no ano: os 21 dias na França.

    A profissão do cara é vencer o Tour. Ele tira do calendário qualquer outra competição importante do ano, só pra chegar na França com força total. É claro que na montagem desse calendário de um foco só eles colocam sim algumas corridas, mas elas não possuem foco, servem “apenas” como um treinão forte e simulado. O pico de performance vai todo para o foco real do atleta.

    Nunca existiu um atleta que venceu as três grandes voltas em um mesmo ano, ou, me corrijam se eu estiver errado, todas as Clássicas em uma mesma temporada. Um pico de performance não pode durar tanto tempo assim, o que faz com que um atleta precise escolher um ou outro.

    Prioridade é uma palavra que não existe no plural – escutei de um professor.

    O Pidcock falou por aí nesse início de temporada que pretende lutar pela camisa amarela no Tour, o que pareceu um pouco exagerado. Não que ele não tenha capacidade de fazer, mas pelo fato de ele estar em pleno janeiro dando cabeçada em provas de cyclocross. Parece “multifocal” demais. Em outras palavras, parece não estar dando o foco necessário para o assunto.

    Coincidências a parte, ele adoeceu essa semana e abortou duas etapas de CX.

    Um outro desafio que existe na hora de montar esse calendário de provas é definir o nível de performance que o atleta vai chegar lá. É que, considerando uma corrida de 21 dias, esse nível de performance naturalmente vai mudar ao longo das etapas.

    Um treinador pode escolher colocar o atleta para largar no primeiro dia do Tour com a performance um pouco (bem pouco, acredito) abaixo de seu pico de performance, partindo do princípio de que na segunda semana ele estará em pico máximo, para sustentar até o fim.

    É uma decisão que procura evitar que o atleta perca performance na terceira semana da prova, por não conseguir, fisiologicamente, segurar o pico de performance por tantos dias.

    Uma vez escutei que os atletas de natação tinham um método bem diferente para distribuir os dias de pico de performance em cada uma das competições. Não me recordo ao certo, mas parece que alguns treinadores trouxeram a técnica para o mundo da bike. Uma mudança na curva do gráfico de performance, deixando o atleta menos tempo em algumas fases de treino (e consequentemente mais tempo em outras) parecia ser revolucionária. Não me perguntem se funcionou.

    Não trago aqui resultados científicos, até podemos entrevistar um treinador futuramente. Meu ponto é alertar para a importância deste tema e o quão variável e polêmico ele pode ser. O quanto você pode estragar uma ou várias competições do seu ano, simplesmente por que inseriu algumas competições a mais do que deveria.

    O ano começou e quem ainda não tem um calendário já está atrasado. Comece agora a pesquisar as suas provas favoritas e traçar a prioridade que mais te chama atenção.

    Bons rabiscos de calendário para você!


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