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    E agora, Avancini?

    Deu na gente uma sensação estranha. Parece que a festa acabou, a luz apagou. A sensação de que o povo sumiu.

    Ou, que em pouco tempo, vai sumir.

    Perde a graça, me parece.

    Perde a graça, tenho certeza. Estou errado, ouvi de um campeão. Mundial, por sinal. Digo, bi-campeão. Mundial.

    Quem não conhece a história pensa que é uma nota fúnebre, tamanho são as lamentações.

    É impossível não encher os olhos de lágrimas. É de fato, um pouco fúnebre.

    Não é o fim de uma pessoa ou atleta, mas o fim de uma era – algo muito maior do que qualquer ser pode ser.

    Eu nunca tinha tomado nota de um anúncio de aposentadoria feito por meio de um documentário, explicando cada um dos motivos com imagens, depoimentos e alta produção. É por que eu nunca tinha visto uma aposentadoria com motivos tão fortes.

    Um dos vídeos que mais me marcaram na internet foi uma palestra no TED, da atleta Diana Nyad, contando sobre a travessia que fez nadando, de Cuba até Florida. Um feito histórico que ninguém jamais havia conseguido.

    Ela usa em sua palestra um argumento que o próprio Avancini usou durante a coletiva de imprensa da aposentadoria. “As pessoas sempre perguntam, depois de um grande feito, ‘Qual é a próxima?’”

    Como assim qual é a próxima? Não tem próxima – ela respondia.

    Depois de ouvir isso, passei a me perguntar se um dia eu atingiria tamanha excelência em minha vida. A excelência de não querer colecionar objetivos cada vez maiores e mais numerosos, mas sim o de parar e apreciar tudo aquilo. Parar não é fácil.

    A tentativa de ser sempre um ser humano melhor é incrível e viciante, mas em alguns momentos pode se perder e se transformar em uma espécie de egocentrismo.

    O Henrique percebeu que, tentar acumular ainda mais títulos não seria algo construtivo para a sua carreira, mas egocêntrico.

    Assistiram o documentário do Arnold Schwarzenegger no Netflix? Em sua carreira de atleta, ele passou por essa mesma dificuldade, após vencer por mais de 10 anos o “campeonato mundial” de fisiculturismo. Ele não queria mais estar ali, não por estar velho ou performando mal – na verdade ele estava em seu ápice e vencendo tudo. Mas começou a pensar que a sua hegemonia estava atrapalhando o esporte. Decidiu dar espaço para os outros atletas, acompanhá-los em treinos ao invés de competições. Mas, jamais, a típica aposentadoria de quem senta no sofá e vai descansar. Novos objetivos sempre.

    Algumas palavras do Arnold e da Diana Nyad se assemelham muito com o que o nosso campeão tentou nos explicar em seus motivos de se aposentar. Não é, em hipótese alguma, que ele tenha chegado no fim e se esgotado, mas que, para continuar crescendo, é preciso mudar de direção.

    Crescer sempre na mesma direção, com os mesmos objetivos, as vezes perde o propósito – palavra que sempre ditou o nosso brasuca do MTB.

    Existe uma grande diferença entre o Avancini e a maioria dos seus rivais no circuito mundial. Foi sem dúvidas um dos caras com o calendário de corridas mais cheio. O maior roteiro de eventos ‘não-corrida’, como ações de marketing (lembram-se de sua participação fantasiado de idoso no Letape?), entrevistas, documentários, equipe jovem, programa de TV, ações com patrocinadores, viagens transatlânticas etc.

    Típico do brasileiro. Faz muita coisa, sabe se virar, aprende de tudo um pouco. Que maneiro isso. Sempre vai surgir um especialista de boteco pra falar que se ele tivesse se concentrado só em competir, teria ganhado mais corridas.

    A troco de quê? Deixar de lado todo esse entretenimento e crescimento do esporte que tivemos durante a era Avancini? Não acredito que alguns mundiais a mais teriam um impacto tão grande como todas as outras ações que o nosso amigo fez com tanto carinho.

    Não tem preço ir comer um hamburguer em alguma cidade de interior e ver que na TV estava passando o Vida de Biker reprisado. Isso nenhum VDP e WVA fazem.

    E essas ações são tão valiosas, que o cara percebeu que a partir daqui, vai se focar só nelas. “Só” rsrs.

    Te prepara Henrique, que agora é que vem a bucha. A vida de atleta amador vai ser uma grande loucura, e temos certeza que você vai ser bem feliz com ela.

    Então não, a luz não apagou. A festa não acabou. O povo não vai sumir. Não vai perder a graça e não é nenhuma nota fúnebre.

    Vai ficar mais difícil e emocionante fazer as apostas de quem vence a elite masculina. Vamos ter um cara bem expert nas transmissões, produções e assessoria de equipes. Deixa de ser rival e vira parceiro de todos os atletas. Vamos ter um monte de surpresa que esse maluco ainda vai nos apresentar daqui pra frente.

    Gente que sabe mudar de caminho, não fica parado nunca.

    Gente que sabe mudar de caminho, não fica parado nunca.

    Preciso repetir o aprendizado?

    Gente que sabe mudar de caminho, não fica parado nunca.

    Que notícia incrível para o nosso esporte.

    Obrigado Henrique – por tudo que fez e por tudo que vai fazer daqui pra frente.

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