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    Rwanda, uma feliz realidade sobre duas rodas

    por Leandro Bittar

    O Tour du Rwanda começa neste domingo, dia 20/2. São sete etapas + um prólogo e um contexto muito especial. Será a primeira edição depois do anúncio de que a capital do país, Kigali, será sede do Mundial de Ciclismo de Estrada em 2025. A escolha foi formalizada durante o Mundial de Flandres no ano passado, com a presença do presidente do país Paul Kagame. Será a primeira vez que os donos da camisa arco-íris serão eleitos na África. E isso é a cereja de um longo processo evolutivo. 

    A volta ruandesa é a principal prova do continente, centro das atenções de boa parte das seleções continentais e grande oportunidade para que jovens possam ser observados por equipes europeias.  Em 2022, serão 19 equipes com 95 ciclistas representando os seis continentes. A Israel-PrimeTech será o único time WorldTour presente. Outras cinco esquadras são PROTeams e não podia faltar um colombiano representando a América do Sul. O nome dele é Jonathan Restrepo, que correu no WorldTour pela Katusha e está na Androni Giocattoli (agora Drone Hopper) há 3 temporadas. Com a equipe do folclórico manager Gianni Savio, Restrepo venceu cinco etapas em Rwanda nas últimas duas edições. 


    Restrepo

    Entre os africanos, destaque para o jovem eritréio Natnael Tesfatsion, companheiro de equipe de Restrepo. Ele foi campeão da volta em 2020 correndo pela equipe de base da Qhubeka e foi logo pinçado por Savio para a Drone Hopper. No ano passado ele foi top 10 em uma etapa do Giro d’Italia. Equilibra as virtudes de um voltista, mas se defende também nos sprints. Seu compatriota Henok Mulubrhan (BikeAid) e o ciclista local Samuel Mugisha (ProTouch) são outros destaques do start list. 

     

    Já entre os destaques intercontinentais, além de Restrepo, dois franceses veteranos: Pierre Roland (B&B Hotels) e Alexandre Geniez (Total Energies). Outro nome bem familiar é Ángel Madrazo (Burgos-BH), o espanhol ficou famoso no Brasil após uma bela participação na Vuelta España 2019 e pela semelhança com o narrador da ESPN, Renan do Couto. Cristian Rodrigues (Total Energies), atual campeão, não irá defender o título. Uma coisa legal com a presença das principais equipes europeias é que os ciclistas reconhecem o esforço dos ruandeses e a dificuldade de adquirir material. Por isso, sempre trazem malas cheias de roupas, acessórios e peças que possam ajuda-los a seguir em frente. 

    Os efeitos da pandemia também afetaram o traçado da prova, que decidiu concentrar o percurso em torno da capital Kigali, reduzindo os deslocamentos e concentrando os ciclistas em um menor número de hotéis. Mas como Rwanda é conhecida como a “Terra das Mil Colinas”, Kigali  não foge a regra. Situada a 1.567m acima do nível do mar, sobram os efeitos da altitude e também rampas duras e seletivas como o já mítico Mur de Kigali, uma subida de 500m, de paralelepípedo, com 11% de inclinação média. Para completar, ano após ano, centenas de pessoas se aglomeram para acompanhar a passagem dos ciclistas em uma das cenas mais bonitas do esporte atual. Assista esse vídeo e entenda o que estou falando. https://www.dailymotion.com/video/x69uhs2

    Uma volta ascendente, com relevância global, um grande envolvimento popular e também a participação do poder público. Tudo isso amplificado com a expectativa para o Mundial. Para mim, é impossível pensar no Tour du Rwanda sem uma associação com o Tour do Rio. Os dois eventos surgiram quase juntos. Ali entre 2009/2010. Inclusive, o Team Rwanda esteve em algumas edições da prova carioca, capitaneada pelo norte-americano de Jock Boyer, primeiro ciclista daquele país a vencer uma etapa do Tour de France. Uma história que vale a pena conhecer mais e foi retratada no documentário “Rising From Ashes” (em português, algo como “Levantando-se das Cinzas”). A organizadora do prova carioca também foi até a África acompanhar uma edição. Luisa Jucá ficou encantada com a paixão dos ruandeses pelo ciclismo. 

     

    Mas voltando ao comparativo, Rwanda é um pequeno país de 12 milhões de pessoas, com graves problemas humanitários e que se reinventou depois de um trágico genocídio, fruto de uma guerra civil motivada pela disputa étnica entre hutus e tutsis no início dos anos 90. Mais de 800 mil tutsis foram executados. Um país ainda em reconstrução, com um IDH baixíssimo (160 de 189 países). E mesmo com tudo isso, eles conseguiram manter uma prova ciclística em constante evolução técnica, com envolvimento da população e incentivo do governo. Repito: o presidente de Rwanda foi até a Bélgica para o anúncio do Mundial de 2025. Já o Tour do Rio foi descontinuado após a edição de 2015, véspera de uma Olimpíada no Rio, por falta de apoio público e privado. Beira ao inacreditável. Há uma grande expectativa para o retorno do Tour do Rio em 2022. Seria ótimo. Mas é bom colocar a cara no vento. Os caras já largaram a gente de roda. 

     

    PS: Recentemente, o Bikeblz entrevistou Jock Boyer e Kimberly Coats, do Team Africa Rising falando sobre o racismo no ciclismo europeu. Vale conferir: aqui

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