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    Porquê XCO e não XCM? Porquê XCM e não XCO?

    Todos nós temos percebido que o mercado de bikes está bem alavancado, marcas vendendo bem, novos nomes aparecendo com frequência, mais atletas apresentando performance de alto nível e uma linha crescente no gráfico do mundo da bike. Temos um bicampeão mundial e alguns outros nomes fazendo bonito lá fora.

    Apesar de tantos benefícios notados, algo adoeceu no nosso querido esporte.

    Lembro-me como eram bem vistas as vitórias dos atletas de elite nas provas de longa distância. Onde foram parar?

    Por que os atletas da elite atual – Cocuzzi, José Gabriel, Raíza, Karen – não lutam pela glória daquelas corridas de dois dias e três dígitos de quilometragem? Por que eles optam pelo foco 100% no XCO?

    Quem aí se lembra como eram as batalhas da elite a 10 ou 15 anos atrás? Hugo Prado, Abraão, Uirá, Ravelli, Roberta Stopa, Erika, Jaqueline – todos periodizavam as suas temporadas pensando em metade XCO e a outra metade XCM. O próprio calendário nacional era divido em 50% – 50% e não tinha pra onde correr.

    No primeiro semestre predominavam os XCO, no segundo era XCM.

    Era bem legal ver como alguns venciam as provas curtas e apanhavam nas longas, mas independente das preferências, todos os atletas competiam todo o calendário – e o público acompanhava e vibrava em todas elas.

    Vencer o Iron Biker e deixar o seu nome gravado naquele troféu era a maior visibilidade que um atleta de elite poderia ter no Brasil. Passem lá (esse final de semana) para ver quais nomes estão gravados no caneco da prova e você verá que são atletas que marcaram a história do MTB para sempre.

    O 12 Horas de MTB também era uma prova para poucos e o nome do vencedor sempre corria pelos quatro cantos do país.

    A etapa de Maratona da CIMTB era a mais esperada, a mais lotada e mais desafiadora para os atletas. Lembro-me que foi ali, na tradicional etapa de Congonhas, que o Cocuzzi teve uma das suas primeiras grandes aparições para o público, quando ainda jovem chegou em terceiro lugar, na roda do Rubinho.

    O comentário que virou febre naquele dia era: “O moleque de 17 anos chegou no c* do Rubinho”

    É muito legal que as modalidades tenham se especializado e é normal que exista uma segregação e independência entre elas.

    O que eu sinto falta é de ver os amadores competindo XCO, assim como sinto falta de ver a elite competindo XCM.

    Antigamente toda a elite marcava presença nas provas de três dígitos, hoje em dia não mais.

    Assim como, antigamente era possível ver amadores no XCO, hoje em dia não mais.

    A minha segunda prova de MTB foi o XCO de Araxá, com quase nenhuma experiência em pilotagem. Hoje em dia, não recomendo que nenhum inexperiente entre naquela pista sem um profissional orientando-o, mas já falamos sobre este tema em outro texto.

    Ficou praticamente segregado: XCM para os amadores; XCO (e XCC) para a elite.

    Não é uma reclamação e não existem culpados – é só uma análise de um cenário que realmente mudou. Acho que essa é uma mudança global e não somente do Brasil.

    Mudanças nas regras de pontuação do XCM e XCO segregaram ainda mais essas modalidades e fizeram com que os profissionais não tivessem mais motivos para investir nas médias/longas distâncias, uma vez que esse investimento passa a ter menos influência na corrida olímpica.

    É totalmente compreensível que os atletas patrocinados dirijam o seu foco para o XCO.

    As marcas, idem. Faz todo sentido que compartilhem do mesmo sonho de seus atletas.

    Este é mais um motivo que engrandece ainda mais as participações que Henrique Avancini teve nos Campeonatos Mundiais de XCM, Cape Epic e Brasil Ride. Nesta abordagem, friso as participações como algo ainda mais importante que a vitória em si, pois o motivo de ele estar ali não é aquele mesmo sonho da corrida olímpica que os demais atletas e marcas cultivam ano a ano, repetidamente.

    O Henrique sempre foi questionado sobre o motivo de ele se desgastar nessas provas “que não contam pontos” enquanto os outros atletas se preparavam para o que realmente “é importante”.

    Meu ponto é que, tanto crescimento do esporte levou à uma belíssima e disputada corrida por pontos olímpicos, cada vez mais especializada, deixando de lado o XCM, acabando com os longos e lindos bolsões de largadas de mil pessoas em que os amadores largavam 20 metros atrás da elite, oportunidade que eu tive durante 10 anos em Iron Bikers, CIMTB Congonhas, Big Bikers etc.

    Nessa mudança de prioridades, será que nos esquecemos do glamour que existe quando um atleta vence uma prova de três dígitos, colocando alguns minutos no segundo colocado?

    Será que trocamos a emoção de um ataque faltando 40 kms para a chegada, por sprints finais com photo finisher em uma prova de uma hora e pouco?

    Será que a entrada das transmissões de XCO abafaram a nossa curiosidade com o XCM, que até hoje é muito difícil de transmitir?

    Minha dica: assistam esse final de semana o Iron Biker Brasil, em Mariana. Sigam a organização do evento e os atletas que estarão lá, assim como outras provas longas, de dois dias ou mais. O espetáculo ali é enorme, os caras que sobem no pódio são gigantes e fazem algo que é cada vez mais desafiador para todos – inclusive para a elite da elite.

    Bons pedais – e que sejam um pouco mais longos neste final de semana.


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