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    O que os ciclistas precisam aprender com o mundo do skate

    E quem puxou a fila desse aprendizado foi a galera do enduro, deixando o nosso esporte muito mais legal

    Lembro-me da primeira vez que consegui acompanhar um grupo de pedal mais forte, desses que o pessoal acelera e vai deixando os amigos para trás. Naquela ocasião, pela primeira vez eu não fui ejetado do pelotão instantaneamente, mas outros foram. O que me marcou foi ver que, quando paramos para esperar os ciclistas que haviam ficado para trás, eles reapareceram munidos de explicações.

    “Meu câmbio está desregulado, tive que subir isso tudo com a marcha pesada.”

    “Meu pneu furou duas vezes.”

    “Essa semana eu tomei antibiótico, não estou me sentindo bem.”

    Cada um com uma justificativa. Não que fossem mentira, mas é como se todos já estivessem esperando uma explicação para o fato de não terem conseguido acompanhar o grupo. Esse ego ferido é o que muitas vezes leva atletas amadores a tomarem decisões estúpidas como a de inventarem mentiras ou de se dopar.

    Foram raras as ocasiões que eu vi justificativas mais legais como “Galera, vocês estão pedalando demais, parabéns” ou “Me espera aí que eu não tô aguentando esse ritmo não”

    O que acontece é que o ciclismo nasceu em um ambiente muito metódico e cheio de números. Ganha quem chegar primeiro, sem subjetividade. Outros esportes, como o skate, nasceram em um ambiente de amizade e diversão, onde o critério para definir quem vence é meio subjetivo e envolve muitas coisas – é a definição do esporte freestyle. E os caras não se importam tanto com essa parada de quem venceu ou quem perdeu, o objetivo da disputa é a diversão.

    Vejo que skatistas incentivam os seus rivais. Um cara manda uma manobra e imediatamente todos os outros que estão ali assistindo gritam, comemoram e parabenizam. Fazem isso em uma barulheira acima da média. Tudo é festa.

    No mundo da bike nem sempre é assim – quando um atleta pega um KOM ou vence uma prova, os que ficaram para trás na classificação parecem de cabeça baixa e começam de novo a se justificar com relação a pneus furados, câmbio desregulado e antibióticos da semana. Não, o problema não é o Strava, nem os Koms e nem as competições.

    Existe um ego ferido, uma disputa que se assemelha àquela parte insalubre do futebol onde as torcidas são incapazes de reconhecer quando o time rival fez um bom jogo.

    É legal ver que agora o mundo da bike está migrando as suas ideias e deixando de lado a parte metódica e egocêntrica da performance. Nas provas de enduro vemos um cenário muito mais sincero e que prioriza incentivar ao próximo. Não confundam isso com se dedicar menos ao esporte, mas sim com se dedicar a ele para ter um estilo de vida mais saudável, divertido e que sabe admirar a vitória do próximo ao invés de concentrar tudo na sua derrota.

    Perder uma corrida deixa de ser uma frustração e passa a ser uma motivação para fazer igual aos caras que estão lá no topo do pódio.

    Se inscrever em um evento deixa de ser uma tentativa de ser o melhor atleta e passa a ser um momento de diversão com os amigos. Um momento de admirar grandes atletas fazendo grandes feitos, e por que não, tentar fazer o mesmo.

    Ao invés de ficar repetindo frases coachs motivacionais, surge a proposta de se divertir com os seus erros e aprender sempre. Admirar os adversários é o primeiro caminho para aprender. E isso o skate sempre pareceu ter de sobra, e agora o enduro dá uma aula para todas as vertentes do ciclismo.

    Menos ego, mais ação. Menos frustração, mais diversão. Bons pedais a todos!


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