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    O INIMIGO parte 2

    As três grandes voltas são os eventos por etapas mais importantes do calendário anual do ciclismo, carregam muita atenção midiática e sua repercussão é enorme.

    Mas no ciclismo, nada é tão verdadeiro e legitimo quanto as corridas de um dia, sobretudo os 5 Monumentos. Largar e chegar, sem poupar, tudo ou nada. Os melhores corredores, mais fortes, equipes focadas num propósito, vencer a prova. Essa gana de vencer acaba por criar uma atmosfera muito mais intensa e competitiva.

    Os 5 monumentos são o Grand Slam das corridas de um dia no ciclismo. A @useiq fez uma série linda de posters que ilustram cada um desses grandes eventos:

    • Milano-Sanremo (ITA),
    • Volta dos Flandres (BEL),
    • Paris-Roubaix (FRA),
    • Liege-Bastogne-Liege (BEL) e
    • Lombardia (ITA).

    Nesse contexto de tudo ou nada, seriam os mais completos ciclistas, os vencedores de clássicas de um dia? Todo treino, toda a tática, todo o trabalho de equipe testados numa só prova?

    Seguindo nossa série sobre os grandes confrontos de todos os tempos, e agora focando em duelos “Clássicos”, vamos começar pelo maior de todos, o grande duelo Belga da década de 70; O CANIBAL vs MR. PARIS-ROUBAIX, ou originalmente EDDY MERCKX vs ROGER DE VLAEMINCK.

    ROGER DE VLAEMINCK – entre os anos 1969 e 1982, venceu 4x Paris-Roubaix ou “Inferno do Norte”, (’77, ’75, ’74, ’72) ficou em segundo lugar por outras 4 vezes e apesar do seu abandono em 1980, nesse período de 14 anos, jamais chegou atrás do 7º colocado.  Adicione a esse currículo consistente, 3 x Milano-Sanremo (’79, ’78, ’73), 2x Lombardia (’76 e ’74) , 1x Liege-Bastogne-Liege (1970) e 1x Volta dos Flandres (1977), um dos únicos a vencer todos os cinco monumentos (11 vitórias) , junto de seus compatriotas RIK VAN LOOY (8 vitórias) e o maior de todos, ÉDOUARD LOUIS JOSEPH MERCKX…

    EDDY MERCKX – 525 VITÓRIAS – Dito isso, o Canibal teve três grandes adversários no auge de sua carreira, entre 1966 e 1976. FELICE GIMONDI e LUIS OCAÑA nas Grandes Voltas e ROGER DE VLAEMINCK nas Clássicas. EDDY tem uma história tão robusta que demandaria uma enciclopédia de informações, dados e recordes, pois é sem dúvida, o maior ciclista de todos os tempos. Se analisarmos apenas os Monumentos, foram 19 vitórias na sua carreira entre 1966 e 1976. 7x Milão-Sanremo (’76, ’75, ’72, ’71, ’69, ’67, ’66), 5x Liege-Bastogne-Liege (’75, ’73, ’72, ’71, ’69), 3x Paris-Roubaix  (’73, ’70, ’68), Volta dos Flandres (’75 e ’69) e A Lombardia (’72 e ’71). Além de todas essas vitórias, seu domínio ainda é refletido nos recordes, como por exemplo 3 Monumentos conquistados numa mesma temporada por 4 vezes, ’75, ’72, ’71, ’69. Um monstro, tão grande que a pergunta é: Seria MERCKX, o PELÉ do ciclismo, ou PELÉ, o MERCKX do futebol?

    Esses dois, sem dúvida, protagonizaram e provavelmente vão eternizar a maior rivalidade das clássicas de todos os tempos. Comparar eras diferentes é uma tarefa difícil e por vezes injusta, mas não tem como negar que o talento, a força e a vontade de vencer desses dois, foi grande demais.

    Viajando no tempo 30 anos, cometemos a heresia de deixar pelo caminho lendas como JOHAN MUSEEUW (O Leão de Flandres – 3x Flandres e 3x Roubaix) que nos anos 90 digladiava contra a “squadra italiana” dos grandes MICHELE BARTOLI (2x Lombardia, 2x Liége e 1x Flandres), ANDREA TAFI (1x Roubaix, 1x Flandres e 1x Lombardia) e FRANCO BALLERINI (2x Roubaix).

    Também deixando de comentar sobre o absoluto “sprinter” irlandês SEAN KELLY, que venceu 4 camisas verdes do Tour de France e nada menos que 9 Monumentos (3x Lombardia, 2x Roubaix, 2x Liege, 2x Milano-Sanremo) sendo o terceiro mais vencedor de todos os tempos. Durante os anos 80, “King” KELLY disputou temporada a temporada contra BERNARD HINAULT, STEPHEN ROCHE e FRANCESCO MOSER, outra era de ouro do ciclismo, mas que como a década seguinte, fora muito diversificada no número de campeões.

    Todo esse salto se justifica, pois entre 2005 e 2015 os maiores protagonistas em clássicas desse século nos presentearam com corridas e disputas fantásticas. TOM BOONEN (BEL) vs FABIAN CANCELLARA (SUI) venceram entre 2005 e 2015, 7 monumentos cada, principalmente nos paralelepípedos da Volta de Flandres e da Paris-Roubaix.

    BOONEN, nascido no solo sagrado do ciclismo (região dos Flandres na Bélgica) aos 21 anos, gregariando o americano GEORGE HINCAPIE, conseguiu seu primeiro pódio de um monumento na Paris-Roubaix. Entretanto aos 24 (2005) sua temporada de confirmação chegara, vencendo não somente Paris-Roubaix, mas a Volta dos Flandres uma semana antes, e fechando o ano conquistando o campeonato mundial em Madrid, batendo no sprint, aquele que também se tornaria uma lenda, ALEJANDRO VALVERDE… BANG!!!, assim surgia o “Tornado” que dentre inúmeras vitórias conquistou mais 3x a Paris-Roubaix (4 no total, recordista junto com VLAEMINCK) e mais 2x Flandres (3 no total, recordista junto com os antigos LEMAN, BUYSSE, MAGNI, e os recentes MUSEEUW e CANCELLARA).

    Falando em FABIAN CANCELLARA, o “Spartacus” conquistou em sua carreira, assim como BOONEN, 7 Monumentos, 1x Milano-Sanremo, 3x Volta dos Flandres e 3x Paris-Roubaix. Adicione à esse currículo 3x Strade Bianche, que não é considerada pela UCI um Monumento, mas pra mim e pra maioria dos fãs se equivale diante da dificuldade e da característica única da prova de correr por trechos de terra branca na Toscana. Porém, o mais impressionante desse suíço, que também foi o maior contrarrelogista de todos os tempos (das 88 vitorias da carreira, 58 foram um CR, dentre elas 4x Campeão Mundial e 2x Ouros Olímpicos) é a consistência nos monumentos. Das 35x que largou, não terminou em 3 oportunidades. Nos 32 monumentos que CANCELLARA correu e completou, esteve no pódio em 16 ocasiões. As disputas entre ele e BOONEN no Muur van Geraardsbergen (subida da Capela na Volta de Flandres) em vários anos, são das mais incríveis disputas de todos os tempos. Recomendo uma pesquisa no Youtube desses momentos.

    Atualmente a briga mais intensa e emocionante do ciclismo vem sendo escrita desde as categorias juvenis do Ciclocross Belga/Holandês. O belga WOUT VAN AERT vs MATHIEU VAN DER POEL (holandês nascido na Bélgica…) sempre que alinhados no mesmo bolsão de largada, nos dão a certeza de um confronto épico. Essa é uma história que ainda está sendo escrita e até hoje (próximos dias teremos Milano-Sanremo 2023), entretanto os resultados até hoje mostram o tamanho desses gigantes. VAN AERT tem 1x Milano-Sanremo e em 13 monumentos disputados, conta com 5 pódios. Já VAN DER POEL, conquistou 2x Volta dos Flandres e em 11 disputas também conta com 5 pódios. A maior rivalidade desses dois gigantes da atualidade vem do Ciclocross, modalidades que praticam desde as categorias de base no Junior. VAN DER POEL tem 4 Ouros, 1 Prata e 1 Bronze, já VAN AERT tem 3 Ouros, 4 Pratas, todos resultados entre 2015 e 2023 deixando apenas 2022 disponível para o inglês TOM PIDCOCK, por não terem participado…

    Enfim terminamos essa série que conta resumidamente os embates mais épicos do ciclismo desde seu início no final do século 19. Peço desculpas por erros e equívocos, mas toda a pesquisa foi feita com base na minha perspectiva e valores. Espero que tenham curtido e em breve estaremos de volta.

    Grande abraço

     

    “Ao final da jornada, nos lembraremos apenas de uma batalha: aquela que lutamos contra nós mesmos, o nosso original inimigo, aquele que nos define.”

    Vinho El Enemigo


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