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    Doping e Ciclismo

    por Alvaro Pacheco

     

    O final dos anos 90 foram marcantes para o Ciclismo de Estrada Mundial. 

    Para o bem ou para o mal seu grande símbolo é o Norte Americano Lance Armstrong. Superou marcas de vitórias de grandes ídolos, para depois ser banido da história do esporte por doping comprovado.

    Da vasta literatura disponível, “Spitting in the Soup” de Mark Johnson publicado em 2016, traz uma interessante perspectiva sobre o assunto.

    Mark descreve como a Revolução Industrial Inglesa, no final do Século XIX estimulou uma forte migração do campo para as cidades que abrigaram indústrias, prometendo uma vida melhor. Este rápido crescimento populacional de operários em fábricas formou o que hoje conhecemos como os grandes centros. Entretenimento como shows e esportes ganharam uma concentração de público que antes não existia. Cidades que viviam da agricultura eram pequenas e com pouco crescimento. O esporte quase sempre era disputado entre equipes de cidades vizinhas.

    O que isto tem a ver com doping? Na busca da produtividade máxima os operários trabalhavam longas jornadas só suportadas com uso de anfetaminas, estricnina e até cocaína. Aliás, o uso destas substâncias era público e admirado como demonstração de comprometimento. O mesmo comportamento valia para corridas de cavalo, nas quais dopar um cavalo fraco para ganhar era permitido e admirado. Empresários e atletas formaram eventos e times, sendo marcante os hoje icônicos clubes de futebol ingleses, como relata a série “The English Game”. Pois bem, praticamente todos os Atletas desta geração saíram das fábricas e, trouxeram com eles a prática aberta e até admirada do uso de substâncias dopantes.

    Foi no início do Século XX que um francês educado na Inglaterra, Barão Pierre de Coubertin, liderou a criação das Olímpiadas modernas, rejeitando o doping não por questões morais, mas por uma segregação das classes operárias que então dominavam nos esportes. Criou-se a expressão do “fair play”, jogo limpo. 

    Algumas Olimpíadas foram marcantes. A  de 1928 quando o patrocínio foi vendido para a Coca Cola, sem que o Comitê Olímpico recebesse um centavo, chamou atenção do potencial econômico do evento. Ficou claro que para aumentar o valor do espetáculo com a quebra de recordes era preciso fazer “vista grossa” para o doping, e assim ocorreu.

    A hipocrisia do “fair play” seguiu até a Olimpíada de Roma em 1960, quando um ciclista dinamarquês morreu durante um contrarrelógio por equipes, e uma verdade virou mentira e, entrou para a história como a primeira morte por uso de doping de um ciclista. O livro traz detalhes concluindo que muito provavelmente o dinamarquês teve uma desidratação severa e foi socorrido em uma tenda de exército no sol do verão de Roma, a 50 ou 60 graus Célsius no seu interior, tendo então enfartado. A versão do doping era melhor para o Comitê Olímpico e a Olimpíada de Roma, e colou.

    O livro narra o uso de substâncias dopantes por Estados na 2ª. Guerra Mundial e Guerra do Vietnã nas quais Aliados e Alemães forneciam de forma sistemática anfetamina, benzedrina e até cocaína para os seus soldados no front. Recomendo o livro; “Blitzed: Drugs in Nazi Germany”, de Normal Ohler.

     

    Mark Johnson destaca como a identificação do déficit (TDAH) de atenção e, o uso indiscriminado de anfetamina criou uma geração na qual 6 em cada 10 pré-adolescentes dos anos 80, desenvolveram dependência química a anfetamina.

    O ponto do livro é que sim, Lance Armstrong e toda a sua geração fizeram escolhas imorais e são merecedores do banimento que sofreram, mas este comportamento não ocorreu ou ainda ocorre somente no ciclismo. Futebol, Automobilismo, Baseball ou qualquer modalidade de alto rendimento também se dopava e possivelmente se dopa.

    Um bom insight é que o esporte é resultado da sociedade do seu tempo. Nos tempos atuais quando usamos substâncias para acordar, estudar, relaxar, fazer sexo e dormir, doping não é uma questão de Saúde Pública, e não apenas de “fair play” nos esportes.

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