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    Chegadas históricas: de Senna a Van Aert

    Neste final de semana nos deparamos com uma cena atípica em uma linha de chegada, onde um favorito, com claras condições de vencer uma das corridas de ciclismo mais importantes do mundo, tomou a decisão de desacelerar e entregar a vitória para outro atleta, que era seu companheiro de equipe. Wout Van Aert tirou o pé na linha de chegada da Gent-Wevelgem e entregou a vitória para Christophe Laporte, mesmo após dirigir uma fuga solo de 52 km esperando o seu companheiro de equipe em momentos críticos nas subidas.

    As explicações para tal feito são diversas e geraram controvérsias nas discussões de grupos de ciclismo, sendo muito aclamado por alguns e nem tanto por outros.

    Acontece que, já vimos outros momentos em que os atletas decidiram trocar o primeiro lugar do pódio em prol de algum motivo que julgassem maior.

    Eu tinha apenas um ano de idade, mas já ouvi várias vezes a história de quando Ayrton Senna conquistou o tri-campeonato mundial, mas na última etapa daquela disputa, entregou a vitória para Gerhard Berger. Chegar em segundo lugar não iria comprometer a vitória na classificação geral, então o brasileiro abriu mão de sua 33ª vitória para ver o austríaco conquistar sua primeira vitória pela equipe que os dois competiam, a McLaren.

    A decisão foi tomada na última volta da disputa, com um uma narração de Galvão Bueno que deixa claro como aquela decisão foi surpreendente para todos, principalmente pela vantagem que Senna já levava.

    Outra chegada que se tornou bastante icônica foi uma corrida a pé em Navarra, em 2012, onde o segundo colocado, Ivan Fernandez, teve a oportunidade de assumir a primeira colocação da disputa nos últimos metros, mas se recusou e esperou com que o primeiro colocado terminasse a prova, mantendo as posições como estavam.

    Quem estava em primeiro colocado era o queniano Abel Mutai, que foi medalha de ouro nas olimpíadas de Londres e quase chegou em segundo lugar na ocasião aqui descrita, pois pensava que já havia cruzado a linha de chegada, sendo que ainda faltavam alguns metros.

    A atitude de Ivan Fernandez, o segundo colocado, foi a de avisar Abel onde era a verdadeira linha de chegada e aguardar que ele concluísse a corrida como primeiro colocado.

    Ivan contou que: “Um gesto de honestidade vai muito bem”

    Cria-se então uma enorme discussão sobre o que é ser honesto dentro do esporte.

    Por um lado, uma grande massa parabeniza tais atitudes e reforçam a ideia de humanidade criada em tais situações. Por outro lado, discutem que a magia do esporte se perde quando os atletas encerram a competição antes da linha de chegada. Argumenta-se que, é normal observar onde o seu adversário falhou, para poder então, encontrar uma brecha sem falhas para vencer.

    Se o seu adversário não enxergou a linha de chegada, você entregaria a vitória para ele?

    Se o seu adversário tomasse um tombo, você entregaria a vitória para ele?

    Se o seu adversário furasse o pneu da bike, você entregaria a vitória para ele?

    Existe um acordo entre cavalheiros que proíbe ataques quando o adversário tem um problema mecânico, mas isso não se estende a erros que o atleta cometa por conta própria.

    Vocês se lembram no ano passado (2022) quando Tadej Pogacar e Jonas Vingegaard brigavam pela camisa amarela do Tour de France? Os dois estavam sozinhos em fuga, onde cada segundo era importante para vencer a maior corrida do mundo e Pogacar tomou um tombo. Quando levantou, não havia nem sinal de Jonas Vingegaard, que já estava bem lá pra frente e era o atual camisa amarela. Enquanto começamos a discutir se era possível alcança-lo novamente, o que aconteceu? Vingegaard tirou o pé e esperou que Pogacar o alcançasse, para que a briga começasse de novo a partir dali.

    No fim, o vencedor daquela etapa e também da classificação geral foi Jonas Vingegaard.

    E tudo isso me fez lembrar de uma história parecida (é a última), mas que teve a melhor explicação de todas por parte do atleta que tomou a decisão de não vencer a corrida.

    Era um campeonato nacional de skate na década de 80, onde grandes atletas como Tony Hawk já tinham passado por todas as peneiras para chegar ali, com juízes avaliando as suas manobras. Entendam, eram os melhores atletas daquele ano, e um deles, Jeff Grosso (falecido em 2020), entrou para fazer a sua sessão e simplesmente avacalhou completamente com tudo. Ele fazia poses de bailarina enquanto estava em cima do skate, caía no chão de propósito e imitava estar usando uma camisa de força em alguns momentos. Improvisava manobras toscas em obstáculos improvisados, um verdadeiro deboche. Logo depois, ele falou que era uma crítica ao estilo pomposo e exagerado de alguns skatistas da época.

    Obviamente, ele perdeu aquele campeonato, mesmo sendo um grande favorito e com habilidades técnicas inquestionáveis. O legal é que ele deu uma entrevista depois de 20 anos, falando melhor sobre o tema. O repórter perguntou, qual era o motivo de Jeff, muitos anos atrás, simplesmente jogar no lixo uma oportunidade de ser o campeão nacional. Jeff Grosso respondeu com a seguinte pergunta: “Você lembra quem venceu o campeonato naquele ano? Não né? Eu também não. Mas de mim, você lembra até hoje.”

    O que eternizou a carreira de Senna, foram 32 ou 33 vitórias (a verdade é que eu nem sei quantas foram), ou foi aquele segundo lugar em específico, que todos já ouviram falar?

    O que eternizaria Ivan Fernandez, ganhar de um queniano campeão olímpico ou aquele segundo lugar, escoltando o campeão olímpico?

    O que eternizou a vitória de Vingegaard vencer aquele Tour ou esperar a chegada de Pogacar?

    O que Van Aert fez neste final de semana? Somou uma vitória a mais, ou escreveu seu nome no mural de atletas eternizados?


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