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    Brasileiro de XCO: chegamos ou passamos do limite nas pistas?

    Aconteceu recentemente o Campeonato Brasileiro de MTB no Mobai Bike Land, um bike park alucinante em São Paulo. Nos treinos e nas disputas de XCE, XCC e XCO, nos deparamos com uma quantidade muito alta de atletas acidentados.

    Primeiro de tudo é importante frisar que a organização do evento estava impecável, assim como o Mobai demonstrou ser um dos melhores lugares para se pedalar no Brasil.

    Existia ali um desafio logístico de trânsito, acessos, tendas de expositores e estacionamentos que foi resolvido com bastante maestria pelos organizadores.

    O que acontece foi que assistimos diversos atletas profissionais – afinal, não é uma prova para amadores – se acidentando.

    E também não estamos falando de atletas que não se atentaram para a nova moda de pistas com saltos. Vários dos acidentados são atletas jovens, que saltam muito bem, fizeram aulas com professores renomados e já aprenderam a pedalar neste novo formato de pistas – e vários se acidentaram fora dos saltos.

    Sem aquela desculpa de “é a geração antiga que não se atualizou”.

    É a nova geração que está se acidentando.

    O Bravinho, com passagens compradas para competir o mundial na Escócia, quebrou a clavícula. Gabriela Ferolla, também com planos internacionais para esse ano, teve fratura em algumas vértebras. Guilherme Muller já foi submetido à uma cirurgia após um tombo treinando na pista. Mikiba e Vinicius Howe são outros nomes de atletas experientes que se machucaram na pista. Vários outros casos aconteceram no final de semana e o trabalho dos socorristas foi bem mais agitado do que eles esperavam.

    Entendo que talvez nem mesmo esses atletas vão concordar com o que vou dizer aqui, mas a minha opinião já é conhecida: as pistas passaram dos limites.

    Não, o Brasil não está mais seguindo uma tendência das pistas mundiais para ter um nível gringo. Ele já passou há muito tempo.

    O que acontece é que está rolando uma disputa entre os organizadores para definir um novo anfitrião para os eventos UCI (Copa do Mundo, principalmente) que devem vir para o Brasil.

    A tentativa de mostrar para os gringos que “nós temos a melhor pista” ou “nível técnico mais alto” chegou em uma disputa insalubre.

    Faço questão de explicar: todos esses trailbuilders e organizadores de prova que entraram nessa disputa são excelentes profissionais. O conhecimento que eles têm sobre pistas, saltos, curvas, materiais, topografia é gigantesco. Não é à toa que estão construindo pistas tão incríveis como a do Mobai. Onde está o erro?

    Para começo de conversa, as pistas de XCO na gringa não são iguais à essas que estão aparecendo por aqui – relato que peguei com atletas profissionais das equipes brasileiras, que me disseram que o mesmo relato foi feito pelos gringos que estavam em Petrópolis. A quantidade de saltos na Copa do Mundo do Brasil estava anormal.

    Em segundo lugar, queria fazer uma breve comparação com alguns outros esportes e modalidades:

     

    Enduro: As pistas de enduro são bem menos perigosas do que as atuais pistas de XC, assim como possuem uma proporção de acidentes menor. Eu, particularmente, não me arrisco mais a competir uma prova de XCO, mas tenho competido as mais importantes de Enduro. Nenhuma prova de Enduro no Brasil (e acredito que no mundo inteiro) possuem sequer um décimo da quantidade de saltos que existe no XCO.

     

    Triathlon: Uma vez escutei um treinador dizer que correr a pé imediatamente depois de ter feito natação e ciclismo é um esporte totalmente diferente de simplesmente correr. As pernas ficam quadradas, o desgaste muscular cria dificuldades que um corredor jamais imaginou experimentar – por isso o Triathlon é um esporte tão complexo. A mesma coisa acontece no MTB. Pegar uma descida técnica e perigosa é muito diferente quando você o faz imediatamente após pedalar em uma subida com força total. Os atletas de enduro podem atestar isso com maestria: se não fizerem o devido descanso antes de iniciar uma especial, é fato que terão uma infinidade de dificuldades durante a descida.

    Fiz esse paralelo com o Triathlon e o enduro para explicar o porquê aconteceram alguns acidentes em locais simples na pista do brasileiro, longe dos saltos. O desgaste que as rampas criam nos braços e musculatura geral do atleta, somado com os sprints de subida, fazem com que um “simples” rock Garden, típico de uma pista de XCO old school, torne-se algo um pouco mais complexo e passível de erros.

    Meu ponto nessa comparação é: as pistas de bike park são excelentes para um pedal “for fun”, mas tornam-se um pouco caóticas quando você coloca um pelotão nervoso, que larga com força total, cotovelo com cotovelo, fazendo as subidas a 190 bpm e então joga os atletas para a sessão de saltos. Assim como no Triathlon o, XCO feito em uma pista de saltos de bike park vira um esporte totalmente diferente que não se encaixa nem no XCO e nem no enduro.

    Isso explica o motivo de vários acidentes terem acontecido fora dos pontos mais complexos, entendem? A pista inteira passa a ser mais perigosa.

    Nota: no enduro, que me parece bem mais seguro, é obrigatório capacete fechado e joelheiras. Não, não sou a favor de evoluir os equipamentos obrigatórios do XC, mas somente de que as pistas voltem ao limite que sempre tiveram.

     

    Wakeboard/ Wakeskate: um amigo me contou que alguns anos atrás eles começaram a colocar pequenas rampas dentro da água. Todos tiveram que aprender a saltar. Aos poucos, as rampas foram crescendo. Todos tiveram que se adaptar à nova evolução e tendência mundial. Exatamente igual rolou nas provas de XCO, concordam? Chegou um momento que estavam construindo mega-rampa (igual aquelas gigantes de skate) dentro da água. O que aconteceu foi que, esse cenário de “elevar o nível do esporte” resultou em alguns atletas profissionais, famosos, que ficaram paraplégicos. Demorou algum tempo, mas as federações perceberam que havia um limite e eles claramente haviam passado. Voltaram atrás, utilizando somente rampas pequenas, sem exageros.

     

    Existe um argumento incontestável: essas novas pistas, com os vários saltos, realmente elevaram o cenário nacional. Sim, é verdade. Eu entendo o quanto isso é verdade e parabenizo todos os organizadores e trailbuilders pela coragem de fazê-lo. Acontece que, além do problema de segurança criado, o cenário do XCO amador morreu. Apesar de todo o crescimento da bike no Brasil, a quantidade de amadores que se inscrevem em uma prova de XCO despencou. Por que? Nenhum mortal quer se arriscar nessas pistas, só os alienígenas. Foram todos para o XCM, enduro, bike elétrica etc. 30 pulos em um circuito de 5 km não é para amador – isso é um fato.

     

    BMX e Cyclocross – E as disputas legais que a gente tinha antes, como por exemplo, uma subida quase impossível de zerar pedalando, pararam de existir. A disciplina de empurra bike (desclipar, carregar a bike, dar uns 5 passos correndo, para então subir de novo na bike), típica das provas de cyclocross, deixaram de existir no XCO. Lembro-me de como era legal um trecho em Araxá onde os atletas trocavam várias posições em uma curta subida onde todos precisavam carregar as bikes e cada um tinha uma velocidade diferente para clipar e desclipar os pedais. Até que o Rubinho conseguiu passar pedalando por lá. Deixou de ser uma subida impossível. A torcida foi à loucura, sem nenhum sangue ou carnificina para entreter os que gostam de assistir tombos. Esse tipo de desafio simplesmente parou de existir no XCO.

    Acontece que hoje nós abandonamos por completo essas disciplinas de cyclocross (que muito tem a ver com o XCO) para adotar 30 trechos com disciplinas do BMX. As pistas são todas feitas de saltos, sem testar nem um pouco da habilidade de empurra bike ou de zerar uma subida técnica praticamente intransponível.

     

    E existe outra discussão: Essas pistas são interessantes para quem?

    Quem entende de mercado sabe que quem sustenta os eventos, marcas e consumo geral é o amador. Não faço ideia de como andam as contas de cada organizador de evento, mas tenho curiosidade para saber se este formato com foco total em atletas profissionais está sendo realmente rentável e por quanto tempo.

    A principal suspeita é de que as pistas, cada vez mais cinematográficas, interessam somente para as transmissões e espetáculo midiático.

    Percebi que um pulo gigantesco é onde existe a maior aglomeração de pessoas para assistir. É ali que deve ser posicionada a câmera principal da transmissão, não é isso? É normal que a gente queira estar perto daquilo que é mais perigoso e radical. Ver ao vivo um tombo e talvez até filmar para mandar para os amigos (ou postar na sua revista digital).

    Em outras palavras: os obstáculos passam a ser construídos para serem midiáticos, para chamarem atenção de espectadores, patrocinadores e UCI – não por quesito técnico. É o famoso “todo mundo quer ver sangue”.

    Construir saltos por que eles deixam a transmissão mais emocionante é definitivamente nos rebaixar ao mesmo trabalho que fazem aqueles jornais que só noticiam mortes, assassinatos e explosões.

    Não venham me falar que esses pulos deixam a disputa mais acirrada, isso não é verdade. Os pulos tem uma velocidade praticamente exata para serem transpostos. Afinal, se você passar muito lento, não vai conseguir pular. Se você passar muito rápido, vai aterrissar fora da recepção e certamente vai se acidentar. É por isso que quase nunca acontece uma ultrapassagem em um salto – ali é um ponto onde todos os atletas passam na mesma velocidade. Dois ou três saltos é bacana, mas 30 é puramente midiático.

    E olha que quem está escrevendo isso é um cara da mídia, que geralmente faz parte da turma que gosta de incitar essas questões cinemáticas e “tocar fogo no parquinho”. Não, esse formato de jornaleco que sai sangue e ama apontar erros nunca fez o meu estilo.

    Antes de ser mídia eu sou ciclista e já competi várias provas de XCO. Eu tava lá quando começou o primeiro salto em Araxá, em 2011.

    Eu me lembro muito bem em 2014, quando uma atleta italiana morreu treinando em uma pista da Copa do Mundo. De lá pra cá, vários acidentes já aconteceram no Brasil e no mundo do XCO. Acidentes sempre vão acontecer no esporte, mas existe um momento que a gente precisa refletir se não passamos do limite – e esse campeonato brasileiro certamente foi um termômetro para mostrar que, assim como no wakeboard, o limite foi ultrapassado. Foram muitos acidentes.

    Não culpo os organizadores e admiro muito o trabalho de todos eles. Não estou aqui para apontar erros ou culpados, como vi alguns atletas fazendo durante o evento – e repudio totalmente a forma que eles colocaram a sua opinião ali.

    Os organizadores são vítimas de algo que começou como uma tendência legal e necessária (e que bom que eles tiveram coragem de dar os primeiros passos), mas evoluiu para uma disputa cinematográfica, midiática e insalubre entre eles. A hora é de dar um passo atrás – e ganha o primeiro a puxar a fila para alinhar de novo as pistas no que é o formato do verdadeiro XCO atual.

     

    Foto: César Delong

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