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    Boxe com xadrez, Biathlon e o MTB com navegação

    Uma vez, ainda criança, vi uma reportagem meio esdrúxula contando sobre atletas de boxe que criaram uma nova modalidade. Eles disputavam um round de boxe e ao invés de descansarem para o próximo, sentavam-se em uma mesa e jogavam uma partida de xadrez, ainda ofegantes e com o tempo cronometrado. Terminada a partida, voltavam a vestir as luvas e caíam no mano a mano de novo. Fiquei sem entender, mas aceitei a explicação de que os lutadores buscavam um teste que envolvesse mais inteligência e preparo mental ao invés de somente físico.

    Não muito distante daquilo, me lembro quando criança assistindo às olimpíadas de inverno e admirando aqueles esportes tão diferentes. Entre eles, fiquei fascinado com o tal Biathlon. Era uma prova de esqui cross country, onde as atletas competiam com um rifle nas costas. A cada volta que elas faziam na pista, estacionavam seus esquis, sacavam as armas e disparavam cinco vezes em um alvo que estava 50 metros de distância.

    Terminados os disparos, que deveriam ser feitos o mais rápido possível, colocavam as armas nas costas com uma agilidade incrível e voltavam para a disputa de esqui, para atirarem novamente na próxima volta e somarem pontos no alvo. A cada volta e sessão de tiros acontecia uma alteração brusca nas posições e pontuações de cada atleta.

    Ali estava a brasileira Jaqueline Mourão, a maior recordista em quantidade de olimpíadas e também a maior campeã de MTB nos anos 90/00 no Brasil. Ela representava o nosso país não só no MTB, mas em algumas modalidades de inverno, incluindo o tal Biathlon.

    Quando entrei para o mundo da bike e pude conhecer essa gigante do esporte, nossa primeira conversa não foi sobre bicicleta, mas sim sobre aquela curiosa modalidade olímpica de inverno. Logo fiz todas as perguntas que eu guardava desde criança.

    Ela me explicou o quanto é desafiador praticar tiro ao alvo com o batimento cardíaco acelerado. As mãos tremendo, a respiração ofegante e a ansiedade de voltar logo para a pista é algo que muda completamente as habilidades do tiro esportivo. E quando você volta para a pista, não pode dar 100% ali, pois vai precisar atirar de novo ao final da próxima volta. São muitas decisões a serem tomadas para administrar o seu ritmo ideal sem perder muito tempo e tendo um bom desempenho no tiro. Um esporte completo: trabalha a respiração, dosagem de ritmo, estratégia, controle de ansiedade, inteligência emocional e vários outros fatores que a Jaqueline Mourão provavelmente acrescentaria à este texto.

    Parece coisa de gincana maluca ou invenção de moda, mas misturar duas disciplinas tão inversas é algo que desafia os atletas em diferentes faculdades físicas e mentais.

    Neste final de semana vivenciei a mesma mistura de disciplinas dentro do mundo da bike: uma prova de MTB com navegação. O percurso não era demarcado e a organização nos entregou um arquivo em GPX com as coordenadas do caminho.

    Pra mim parecia simples, afinal, já tinha feito provas de gravel com navegação e curtido bastante a dinâmica que se acrescenta quando o percurso é misterioso e não demarcado. Mas ficou bem mais intenso no MTB.

    Navegar por um GPS demanda que você tenha calma e saiba controlar a sua ansiedade. Precisa sempre se perguntar se está no caminho certo e conferir o percurso. A leitura de mapa é uma outra habilidade que precisa ser desenvolvida, assim como jogar xadrez ou tiro ao alvo.

    Mas quando você está em cima da bike, com o tempo contando, precisa conseguir olhar para o seu caminho e navegar ao mesmo tempo. A visão periférica é de extrema importância, pois você vai precisar tirar o olho das pedras e irregularidades do terreno para dar uma conferida no mapa. Facinho tomar um tombo.

    Exige controle psicotécnico de manter a direção enquanto navega.

    Praticamente todos os pilotos cometem algum erro de navegação. Em algum momento confundem uma curva, passam direto por uma entrada e precisam voltar o que erraram ou até sem perceber, cortam caminho em algum ponto e acabam tomando penalização.

    E o fato de a navegação ser em uma prova de puro MTB deixa tudo ainda mais intenso. As vezes o mapa te manda virar à direita em um local que você não encontra nenhuma entrada. É normal que você pare, perca algum tempo pensando se aquilo está correto, para tomar uma decisão de procurar uma trilha ali onde o mapa está indicando. Em algumas situações precisamos pedalar em um mato fechado até encontrar a tal trilha indicada no mapa.

    O legal disso é que não vai vencer o mais forte nem o mais inteligente, mas sim o que tem o melhor equilíbrio entre essas duas importâncias. Na verdade, força e inteligência não são as únicas grandezas aferidas nessas disputas.

    Para deixar tudo ainda mais apimentado, a competição que fiz neste final de semana era exclusiva para bikes elétricas. O percurso foi montado de forma a deixar os atletas no limite da duvida entre economizar a bateria ou não.

    Alguns esgotaram a sua bateria por completo antes do fim da etapa, e isso lhes custou pedalar com uma bike de vinte e tantos quilos desligada, perdendo bastante tempo e se desgastando para o dia seguinte de disputa (foram três dias de prova).

    Outros, ficaram economizando a bateria e terminaram a etapa com muita bateria extra sobrando – um erro igualmente prejudicial, pois poderiam ter usado aquela bateria para acelerar nas subidas e fazer um tempo melhor.

    A administração da bateria é algo que não existe nas provas de E-MTB XCO, mas que faz total diferença estratégica em provas de Endurance. Mais uma vez, o piloto inteligente se sobressai.

    E a navegação fica mais propensa a erros pelo fato de estar em uma e-bike. A velocidade um pouco mais alta aumenta a chance de você passar direto pelos caminhos certos, dificulta ainda mais o momento de tirar o olho da trilha para conferir o GPS e ainda gera um fator ansiedade para não reduzir nunca a velocidade de cruzeiro.

    São muitos controles nas mãos: marchas, canote retrátil, nível de assistência do motor, trava das suspensões e tela do GPS (com infinitas ferramentas lá dentro). Em alguns momentos o cockpit de uma e-bike com navegação pode ser confuso.

    E o diferencial é que não precisamos inserir um esporte diferente no MTB para termos a dinâmica das multi-disciplinas. O esqui precisou acrescentar o tiro esportivo, os boxeadores precisaram acrescentar o xadrez, mas quando o MTB acrescentou a navegação, foi só a inserção de uma disciplina que já faz parte do nosso esporte, que tudo tem a ver com as expedições mais intrínsecas dele – bastou torna-la parte da competição para desenvolvermos as mesmas combinações de testes mentais com os já praticados testes físicos.

    Acredito que o ciclismo e o MTB estão cada vez mais abandonando aquela moda antiga de “abaixar a cabeça e fazer força”, mas de um tempo para cá estão adotando filosofias que os tornam cada vez mais divertidos, dinâmicos e estratégicos.

    Minha recomendação para os organizadores de evento é que entrem logo nessa tendência que tem tudo para abraçar amadores, profissionais e grandes patrocinadores.

    Para os praticantes do mundo das duas rodas, recomendo que experimentem essa modalidade que ainda engatinha no Brasil.

    Deixo aqui a segunda etapa da corrida, que acontecerá ainda esse ano em agosto na Serra da Canastra.

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