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    Atleta que só fica no vácuo, é legal?

    Afinal, é errado só ficar na roda e não ajudar na ponta do pelotão?

    Essa foi uma discussão bem calorosa durante a Milan San Remo, onde mostrei fotos de um Mathieu Van der Poel que se posicionava lá no fundo do pelotão, para depois, descansado e sem colaborar para a alta velocidade do grupo, atacou a todos.

    Vamos com calma. Entender a dinâmica de um pelotão é algo que as vezes nem mesmo os atletas que o compõe conseguem fazer com exatidão.

    Alguns profissionais já definiram o pelotão como um organismo multicelular, que tem vida própria e as vezes muda de velocidade, de formato ou se divide em várias partes, sem que nenhuma das células (ciclistas) entendam o por que de aquilo ter acontecido.

    É curioso pensar que os próprios ciclistas não conseguem definir qual será a diretriz que um pelotão vai seguir, por isso dizemos que o ciclismo é um xadrez em alta velocidade.

    As discussões sobre posicionamento ideal, velocidade, acelerações, acidentes e as dinâmicas necessárias para aquele grande grupo de ciclistas sobreviverem e talvez vencerem a prova, beiram o infinito e talvez nunca serão completamente compreendidas, mas vamos dissecar sobre este problema que muito escutamos: “Fulano só ficou de roda.”

    Imagine que, o camisa amarela de uma equipe não está tendo um bom dia e acabou se posicionando mal no meio do pelotão. Não fez o que todo camisa amarela deve fazer, que é ficar entre as três primeiras filas do grande grupo. Percebendo a gafe, as outras equipes organizam uma fuga.

    Pensando em uma fuga bem sucedida e com boas possibilidades de vitória, vamos precisar de pelo menos 5 atletas de equipes diferentes. É possível que uma equipe tenha dois atletas na fuga, o que significa que essa equipe tem muito interesse em fazer aquela fuga dar certo, pois afinal, estão apostando alta energia de dois jogadores naquele movimento. Esse gasto energético vai custar caro para cada um dos atletas que está ali.

    Essa fuga formada é um momento onde todos os atletas vão colocar a cara no vento e colaborar entre si, pois tem um objetivo em comum: abrir o maior tempo possível do camisa amarela que ficou para trás.

    Só vai apostar suas fichas nessa fuga quem tem interesse em ganhar tempo em cima daquele camisa amarela? Nem sempre.

    Existem equipes que não tem a camisa amarela como principal objetivo. Essas equipes nem contratam atletas com as características necessárias para tal vitória. Digamos que a aposta dessa equipe seja ganhar a camisa verde, que é a maior somatória de pontos por sprint.

    E aí, digamos que naquela fuga que foi criada, um sprinter dessa equipe acabou entrando ali. Nem ele, nem ninguém da equipe dele têm interesse em colocar tempo no atual camisa amarela, afinal, já estão muito longe dessa classificação geral. Mas, se ele conseguir acompanhar aquela fuga até o fim, ele pode vencer a etapa no sprint, concordam?

    Então eu lhes pergunto, vocês acham que esse sprinter vai colocar a cara no vento para ajudar a fuga? Não vai, e o motivo é muito simples: para ele tanto faz se colocarem 1 minuto ou 20 minutos no camisa amarela. Ele só quer ser o primeiro a cruzar a linha, independente do tempo. E para isso, ele precisa guardar energia para o sprint.

    Isso é um problema para aqueles outros atletas da fuga? Não! Não é, por que, mesmo que eles cheguem em segundo ou terceiro lugar naquele dia, o sprinter que só ficou chupando roda não é uma ameaça no tempo da camisa amarela. A não ser que ali na fuga exista um segundo atleta que também quer ganhar os pontos de sprint e vencer a etapa. Nenhum dos dois vai colocar a cara no vento, e o resto da fuga nem liga para eles – são objetivos diferentes que não se ameaçam.

    Esse é um exemplo de um chupa rodas que não incomoda e nem precisa colaborar com a fuga.

    Agora vamos pensar em uma situação inversa, onde o chupa rodas atrapalha em muito o pelotão:

    Digamos que, nessa mesma fuga entrou um atleta que é da equipe daquele camisa amarela que ficou para trás.

    Se esse atleta ajudar a fuga, ele está atrapalhando o seu companheiro de equipe que ficou abandonado. Por isso, ele tem a importante função de atrapalhar a fuga. Ele vai ficar na roda o tempo inteiro. Eventualmente ele até pode ir para a frente do grupo, com o intuito de colocar uma velocidade mais baixa, controlando o pelotão, para fazer com que o camisa amarela tenha menos diferença de tempo para os atletas daquela fuga. A fuga odeia ele, ele odeia a fuga, todos tem razão.

    É muito normal que a fuga tente atacar novamente para que aquele atleta (da equipe do camisa amarela) perca a roda e fique fora da fuga, mas como ele está com as pernas preservadas, afinal, ficou só aproveitando o vácuo, vai ser difícil despacharem ele.

    E ainda precisamos falar do pelotão lá de trás, que o camisa amarela ficou. Quem tem interesse em puxar esse pelotão? Primeiramente, vai ser os outros integrantes da equipe do camisa amarela. Esse é o momento em que eles vão puxar o pelotão o tempo inteiro.

    E as equipes que têm seus atletas bem posicionados la na fuga? Bom, eles vão ficar só de roda, assistindo a equipe do camisa amarela fazerem o trabalho sujo – sozinhos.

    Estes são só alguns exemplos de atletas que vão ficar no fundo do pelotão, sem colaborar, seja com o intuito de ‘atrofiar’ o tempo do pelotão ou de simplesmente lutar por objetivos diferentes do restante dos atletas. Podem atrapalhar, bem como podem ser indiferentes.

    Ou seja, o pelotão não é pautado em “atletas se ajudando”, mas muito mais o inverso. Existem atletas com objetivos em comum que, em alguns momentos tem motivação para se ajudar – mas só até certo ponto.

    Nas clássicas, como foi o exemplo da Milan San Remo, esses objetivos são ainda mais difíceis de entender, pois não temos a dinâmica das camisas e vários dias de disputa – mas certamente temos atletas motivados a ajudarem na frente, enquanto outros simplesmente não tem.

    Algumas pessoas sabem dos acordos de cavalheiros que existem dentro pelotão, como não atacar no momento de um tombo ou problema mecânico, mas confundem isso com a necessidade de ajudar os atletas adversários – um grande equívoco.

    Nunca existiu trabalho de caridade dentro do pelotão, principalmente nos lençóis da rivalidade.

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