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    Até quando?

    Mais uma vez, me pego refletindo sobre os problemas que temos com motoristas imprudentes. Pela milésima vez.

    Acho que falo por todos quando digo que o assunto é indigesto e angustiante, sempre. Não é possível que essas reflexões não vão parar. Chama repórter, faz textão, dá entrevista no noticiário, pedalada pelada… e daqui uns meses, começa tudo de novo.

    Talvez os grupos de ciclistas estejam um pouco desorganizados. Um pouco desestruturados, sem ideias plausíveis.

    É normal que a gente fique assim quando existe uma legião de bêbados prontos para te matar com uma arma de 3 toneladas. Ou aquela panelinha que acha que o espaço é todo feito para eles.

    Estamos sim, mais uma vez vivendo uma tragédia, perdemos o nosso chão e temos dificuldades para reivindicar o óbvio, mas está acontecendo. De novo.

    A culpa não é nossa, nunca foi. Mas talvez seja ingenuidade pensar que os bêbados e os sem noção passem a gostar da nossa cara por que assistiram mais um corpo no noticiário ou uma manifestação pela conscientização no trânsito.

    Sinto lhes dizer, mas, mesmo comovidos com toda aquela indignação apresentada na mídia, o sem noção e o bêbado ainda querem o espaço todo para eles. Não vão aceitar chegar atrasados em seus compromissos. Não vão voltar de uber da balada.

    Vejo a comunidade de ciclistas sendo mutilada e assassinada por motoristas todos os dias e se manifestam levantando cartazes com os dizeres “Motoristas, parem de nos mutilar” ou “Parem de nos assassinar”.

    É como um bairro que tem muitos casos de assaltos, e aí os moradores manifestam com cartazes: “Assaltantes, parem de nos assaltar”. Só faltou escrever “por favor” no final.

    Seria ótimo se esse tipo de manifestação funcionasse.

    Apesar de ser um pensamento lógico e correto, não é efetivo. Nem tudo é diálogo, nem tudo é manifestação pacífica. Bêbados e sem noção deixam de ter esses “apelidos fofinhos” quando matam alguém. Devem ser chamados de outra coisa.

    O assassino que estava voltando da balada as oito da manhã deve ser tratado como tal. “Bêbado” chega a ser um elogio para ele.

    E sabe o que eles não merecem também? Cartazes, manifestações, diálogos ou campanhas de conscientização. O óbvio não precisa ser falado, precisa ser feito.

    Tenho certeza que independente de posicionamento político, todos aqui concordam que vivemos no país da impunidade. Todos já ouviram a história de diversos assassinos – de ciclistas ou não – que responderam em liberdade. E quando foram presos (se foram), não ficaram nem 1/3 do que deveriam.

    Boatos dizem que o mais recente matador está preso, mas, até quando?

    Pois é. A principal pergunta nem é “Até quando vão continuar nos matando?”, mas “Até quando esses assassinos vão ficar impunes?”

    E a culpa não é só dos assassinos.

    Até quando vamos achar normal rodovias que nunca fiscalizaram ultrapassagens pelo acostamento? Até quando vamos ficar levantando cartazes a esquecendo-nos de discutir os diversos pontos técnicos mínimos que uma rodovia precisa ter?

    Radares estratégicos, sinalizações sonoras, faixas de transição, manutenção do acostamento e penalização para os responsáveis que permitem que tais fatores técnicos sejam ignorados.

    Afinal, se um prédio cai, o engenheiro é penalizado. Por que a concessionária de uma via permanece impune quando aparece um buraco enorme na pista e ele fica ali por meses até causar um acidente?

    Alguém aí tem que ser punido, não é? Mas esse alguém insiste em falar que a culpa é só do “bêbado” (o nome correto é outro), mas na verdade, existem mais responsáveis aí.

    Por mais difícil que seja, o momento é de secar o choro e colocar o pé no chão. Parar de bater panela e discutir tecnicamente. Chega de “pedalada pelada” e vamos assumir o nosso papel de quem mais entende do assunto.

    O ciclista já conhece cada buraco de cada rodovia, ele é quem mais passa naquele lugar, quem mais observou de tudo por ali. Ele já viu cada infração, sabe onde mais acontecem e sabe até o que leva os motoristas a cometerem. O ciclista é então o maior qualificado para mostrar o caminho do fim das tragédias.

    Este texto não é um manual do caminho a ser seguido e também não é uma carta de consolo ao que ocorreu. Seria fantástico se eu tivesse a receita para estes problemas que nos assolam neste momento. É um exercício para lembrar-nos de colocar os pés no chão e, quem sabe pensar em algo diferente a partir daqui.


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